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Rafael Gallo: a força de um jovem escritor

postado por Kátia Borges @ 4:44 PM
8 de janeiro de 2016

Por Rodrigo Sarubbi

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Quem escreve um romance de quase 400 páginas? Nossas experiências são líquidas, rápidas, imediatas. Ler um livro é uma experiência elitista, mas mesmo a elite não se furta ao zeitgeist: célere, descartável, cool, bombástico. Vivemos em tempos de muitas explosões e muito sexo e muita morte e muitos gritos e muita miséria. Precisamos a todo momento provar que somos blasé, que estamosdessensibilizados, que somos praticamente primos do Quentin Tarantino e sobrinhos de Charles Bukowski. Quem seria louco o bastante para escrever uma longa história curta em que basicamente nada demais acontece? Em 2015? Por uma grande editora? Todo escritor com bagagem adora enaltecer Henry James, mas, na prática, é bom que ele continue no século XIX.

Quem é maldito hoje? É claro que a comunidade literária está unida para descer o sarrafo na Autoajuda, mas quando tanta gente faz questão de narrar uma podridão tão podre que chega a ser kitsch, como continuar chamando esse movimento de transgressor? A meu ver, transgredir é negar os pares em busca tanto da transcendência quanto da imanência, a se escolher. Sob esse ponto de vista, “Rebentar”, de Rafael Gallo, é um livro profundamente transgressor.

O autor cola domínio narrativo a diálogos pulsantes a virtuosismo imagético a metáforas acessíveis (fugindo do hermetismo enojante que alguns escritores fazem questão de nos empurrar guela abaixo), tudo isso para contar uma história de uma profundidade psicológica devastadora, em que tudo acontece do lado de dentro de Ângela (sua protagonista). O lado de fora é dolorosamente comum, ordinário, comezinho, como a vida minha e sua e a de qualquer um, em especial daqueles que fazem tanta questão de dizer que não.

Um fio invisível

Pela narração parece correr um fio invisível e indestrutível, feito do próprio tecido da realidade ficcional, em volta do qual o autor costura sua história, cuidadoso, com calma, antecipando e tratando de todo e qualquer detalhe relevante: nossa geração inteira parece sofrer de déficit de atenção e hiperatividade; dona Ângela e seu Otávio, não. São de outra época, e são de verdade, não apenas no RG. Os diálogos são cortantemente reais: quando Ângela e Isa (sua sobrinha e afilhada) conversam, são duas pessoas mesmo conversando, cada interjeição, cada cadência, cada suspiro.

As personagens de Gallo são tão convincentes que chegam a ser mais palpáveis do que muita gente de carne e osso. As imagens do livro nos fazem acreditar que a consciência do autor está ali presente e nunca abandona o cenário. Somos convidados, tal qual espectros intangíveis, a presenciar cada desdobramento, a passar o dedo nos móveis e sentir sua poeira, a luz, as cores, a disposição dos objetos. As metáforas são claras, de fácil acesso, mas nunca preguiçosas. Pedreiros mudando o piso de uma casa são a deixa perfeita para se pensar uma transformação de dentro para fora, ou o inverso.

Rafael é o Deus de seu livro, como todo grande precisa ser: ele está em tudo, mas não aparece nunca. Tem o domínio completo de todas as situações, pensamentos e do tempo da história. Não há fios soltos. As escolhas são atentas e felizes. Eu poderia fazer um longo comentário sobre a inveja que ler um livro assim, de um cara da mesma idade que eu, suscita, mas dessa vez a gratidão superou a mesquinhez. Obrigado por nos legar essa obra-prima.

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Autor: Rafael Gallo
Título: Rebentar
Editora: Record
Ano da edição: 2015
374 páginas
Avaliação: ★★★★★