Hobbitmania no mercado literário

postado por Andreia Santana @ 4:50 PM
17 de dezembro de 2012

O pacato  hobbit Bilbo Bolseiro, que leva uma vida sossegada e comum no Condado, parte em uma jornada de aventuras e perigos ao lado da companhia de anões de Thorim Escudo de Carvalho

De carona na estreia do primeiro filme da trilogia O Hobbit nos cinemas, a Lafonte e a Universo dos Livros lançam no mercado editorial brasileiro dois livros que pretendem explicar tanto o livro de J.R.R.Tolkien, quanto esmiuçar o processo de adaptação da obra para a telona, em mais um projeto do diretor Peter Jackson (O Senhor dos Aneis, King Kong, Um olhar do paraíso).

O Hobbit, que é um único livro e até agora eu não entendi porque Jackson resolveu dividi-lo em três (só posso imaginar que assim os lucros serão três vezes maiores), foi lançado em 1937 por Tolkien, com base em histórias que ele contava aos filhos. A obra é uma espécie de prólogo para a história que o autor desenvolveria ao longo dos vinte anos seguintes em O Senhor dos Anéis, também já filmado por Jackson em um projeto que faturou bilhões e conquistou milhares de fãs mundo afora, muitos que nem tinham ouvido falar do escritor e outros que continuam sem ter a menor noção da importância de Tolkien para a literatura de fantasia contemporânea.

Para quem não conhece a obra do escritor britânico, vale ressaltar que embora tenha sido lançado primeiro, O Hobbit não é a origem das coisas, como erroneamente já foi dito por aí. Existem outros escritos do autor, como O Silmarillion, que de fato contam a história da criação da Terra Média e de seus povos. Tolkien deixou dezenas de manuscritos, rascunhos e trechos de contos que ele pensava desenvolver mais tarde, todos narrando fatos ocorridos nas duas primeiras eras do mundo. O Hobbit e O Senhor dos Aneis se passam na terceira era e são o anti-climax e o climax de eventos muito mais antigos dentro da complexa mitologia de origem pensada pelo autor.

O livro O Hobbit, de Tolkien, foi lançado no Brasil pela Martins Fontes, junto com toda a obra do escritor, no começo dos anos 2000

Boa parte desse material deixado pelo escritor foi reunido em Os contos inacabados, assim como o próprio manuscrito de O Silmarillion ganhou o acréscimo de outros trechos que o autor pretendia desenvolver melhor, mas não deu tempo. Tolkien escrevia e reescrevia diversas versões de suas próprias obras, experimentando desde recursos estéticos até narrativos e linguísticos. Também trabalhava ao mesmo tempo em diversos projetos, tanto como acadêmico, quanto como escritor de ficção. Em paralelo às sagas da Terra Média escreveu várias histórias infantis, como Roverandom, ou novelinhas quixotescas, como Mestre Gil de Ham. Sobre a Terra Média, ele criou idiomas para os povos que a habitavam, com seus respectivos dialetos, além dos famosos mapas. E tudo isso possuía uma estrutura sofisticadíssima, tanto linguística quanto cartográfica, que só podia mesmo ter saído da imaginação de um filólogo e erudito como ele era. Tolkien fazia parte de um sem número de sociedades literárias, como The Coalbiters e The Inklings e discutia com amigos e intelectuais como C.S. Lewis (As Crônicas de Nárnia) temas ligados às mitologias nórdica e britânica; além de filologia, história e outros temas.

Christopher Tolkien, o filho do escritor, fez várias seleções de textos do pai, que de 2000 para cá já tiveram diversas reedições. No Brasil, a Martins Fontes publicou, na época de O Senhor dos Aneis no cinema, toda a obra do autor, até seus textos menos conhecidos. O espólio de Tolkien, inclusive, devido ao enorme potencial de gerar produtos e subprodutos e pelo fato de valer milhões, vira e mexe é motivo de querela judicial entre editoras e herdeiros. A própria adaptação de O Hobbit demorou a sair porque dependia de ajustes em uma briga judicial entre dois estúdios.

Os livros das editoras Lafonte e Universo dos Livros somam em contribuição para desvendar o universo mítico criado pelo autor, que mais uma vez virou a bola da vez por conta do lançamento cinematográfico. Além disso, o mercado editorial não é bobo e lança diversos produtos derivados para saciar a curiosidade dos fãs.

Quem quiser se aprofundar realmente na origem da Terra Média e dos acontecimentos que culminam na Guerra do Anel não deve deixar de ler O Silmarillion

Explorando o Universo do Hobbit – Mensagens secretas, curiosidades e a filosofia da história na Terra Média, editora Lafonte, escrito pelo professor de literatura Corey Olsen, apresenta análises críticas sobre o clássico de Tolkien, que discutem desde o comportamento dos anões até a alegria sublime dos Elfos, a natureza do mal, o papel da sorte, o mistério da vida e o livre arbítrio humano. O livro pretende mostrar como essas mensagens estão inseridas na história por meio das canções, das reações dos personagens, da paisagem. Explorando o Universo do Hobbit… foi escrito a partir de inúmeras aulas do Olsen em um projeto que ele mantém no Mythgard Institute (uma espécie de centro online de estudos da obra de Tolkien, das lendas arturianas e da literatura fantástica), como meio de esclarecer pontos sutis da narrativa complexa do escritor britânico.

Tolkien de fato não é um autor fácil de ser lido e muito menos interpretado. Há quem diga, por exemplo, que O Senhor dos Aneis é uma alegoria para a II Guerra, embora o autor tenha negado veementemente essa afirmação.

O filme, passo a passo - O outro lançamento é da Universo dos Livros. O Hobbit de A a Z, se pretende um guia completo, escrito pela jornalista Sarah Oliver, sobre os bastidores e segredos por trás dos filmes dirigidos por Peter Jackson. Ou seja, é um making off em papel. A obra traz todas as etapas da adaptação cinematográfica, dos detalhes do set de filmagem na Nova Zelândia, até a coreografia, os testes de elenco, os treinadores de voz, as locações e os dublês usados nas cenas de batalhas Traz ainda depoimentos do diretor e dos atores do filme. Cada capítulo é procedido da seção “Você Sabia”, com curiosidades sobre as filmagens e os atores, como a de que enquanto filmavam no Condado, uma das vacas decidiu que não queria mais aparecer no filme e saiu em disparada, obrigando um membro da equipe a correr atrás do animal para a cena ser refilmada. Já o ator Christopher Lee, de 90 anos, que interpreta Saruman, é a única pessoa do elenco que conheceu Tolkien pessoalmente. E Andy Serkis imitou o som que seu gato fazia ao tossir bolas de pelo para criar a voz de Gollum. Outra curiosidade é que o chefe tribal dos Maori Iwi não queria que a filmagem fosse realizada no Monte Ngauruhoe e nas montanhas ao redor por considerá-los lugares sagrados.

Com acesso aos sets de filmagens e entrevistas coletivas, Sarah Oliver relata também as dificuldades enfrentadas pela produção. Antes de efetivamente começar em 28 de março de 2011, foram sucessivos os atrasos e, por muitos anos, existiu a possibilidade dos filmes não saírem do papel. O Hobbit seria dirigido a princípio por Guilhermo Del Toro (O labirinto do fauno, Hellboy), que teve de deixar o projeto porque estava preocupado com o cronograma.

Fichas Técnicas:

Explorando o Universo do Hobbit 

Autor: Corey Olsen

Editora: Lafonte

256 páginas

Preço: R$ 29,90

 

 

 

O Hobbit de A a Z

Autora: Sarah Oliver

Tradução: Gabriela Rocha Ribeiro

Editora: Universo dos Livros

216 páginas

Preço: R$ 29,90

Tags: , , , , , , , ,

2 Respostas to “Hobbitmania no mercado literário”

  1. Andreia Santana  Says:

    Eu também, porque com certeza a direção de Del Toro casaria bem melhor com a literatura de Tolkien. Del Toro é adepto de enveredar pelo lado sombrio das fábulas. Uma pegada “Laribinto do Fauno” em O hobbit não destoaria nadinha da mitologia tolkiana.

  2. Bruno Porciuncula  Says:

    Queria muito que Guilhermo del Toro tivesse dirigido o filme… assim, fugiria mais da cópia de O Senhor dos Anéis…

Deixe seu comentário