Machado de Assis entre os preferidos de Allen

postado por Andreia Santana @ 6:39 PM
6 de maio de 2011

O livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, uma das obras ícone de Machado de Assis, caiu por acaso no colo de ninguém menos que o cineasta Woody Allen e virou um dos cinco preferidos do diretor de Hanna e suas irmãs. A notícia, alardeada pelo Twitter desde a manhã desta sexta-feira (ficou nos Trending Topics em SP e Rio), foi publicada originalmente no site do jornal The Guardian e depois na Folha On Line, espalhando-se rapidamente entre os usuários do microblog que são fãs de literatura, do autor clássico brasileiro e do geniozinho da sétima arte norte-americano.

Allen, na entrevista do The Guardian, disse que recebeu o livro pelo Correio, enviado por um brasileiro desconhecido (provavelmente algum fã do diretor), que escreveu a instigante dedicatória: “você vai gostar disso aqui”.

No início, ainda segundo a entrevista, Woody Allen decidiu ler a obra por um motivo bem banal – “não era muito grosso, se fosse, eu descartava” – mas acabou fisgado pela prosa machadiana.

Não sei se há houve algum estudo comparativo entre o cineasta e o escritor do século XIX, mas que os dois tem uma visão de mundo muito parecida, isso tem. Guardadas as devidas proporções de distância geográfica (EUA x Brasil), temporal (Machado nasceu no século XIX) e histórica (o brasileiro viveu na época imperial, sob o reinado de Pedro II), os dois tem o mesmo olhar desencantado, mordaz e aguçado sobre o ser humano. E como bem lembrou um amigo com quem conversava hoje cedo via twitter: o mesmo “pessimismo irônico, a auto-depreciação, a incapacidade de entender a mulher, um assombro com os sentimentos, uma sensação de desorientação com os relacionamentos, uma falta de lógica na vida…”. Concordo com você em gênero, número e grau, @saymon_n.

E para quem ficou curioso com a lista top five de literatura de Woody Allen, lá vai:

O Apanhador no Campo de Centeio – J.D. Salinger

Memórias Póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis

Elia Kazan: A Biography - Richard Schickel

The World of SJ Perelman – Mezz Mezzrow

Really the Blues – Bernard Wolfe

Cena do filme Memórias Póstumas de Brás Cubas, adaptação de obra homônima de Machado de Assis. Reginaldo Faria vive o morto que decide escrever sua biografia direto do além túmulo

Não vou me estender sobre o zum zum zum de que durante a entrevista Woody Allen comparou suas impressões de Memórias Póstumas com o livro de J.D.Sallinger, e nem comento que por causa disso, muita gente dita “culta” já está endeusando um e outro autor. Atribuo isso ao fato de Allen não conhecer a obra completa do genialíssimo Machado de Assis, mas quando passar a conhecer, se ficar interessado o suficiente para isso, verá que o brasileiro não precisa passear no “campo de centeio” de Sallinger para ser um dos grandes nomes da literatura clássica mundial.

Só a dedicatória na abertura de Memórias Póstumas, em pleno século XIX ainda contido e pudico, já vale o Nobel:  “Ao verme que primeiro roeu as carnes frias do meu cadáver, dedico estas memórias póstumas…”

Woody Allen gamou, é claro!

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3 Respostas to “Machado de Assis entre os preferidos de Allen”

  1. Vera Lyrio  Says:

    Em pleno século XXI, a prosa machadiana está viva, e continua seduzindo, exatamente, por falar de coisas reais, pertencentes ao nosso universo cotidiano. Machado de Assis permanece mais atual do que nunca, abalando alicérceres, descarnando a matéria, retirando os belos invólucros, revirando as entranhas, o escondido, o lado avesso. Sempre colocando o dedo na ferida, vai revolvendo o lixo que, normalmente, nós varremos para debaixo do tapete. Afinal, diante dele, de pouco adiantam as nossas máscaras, nossa vidinha de aparências, qualquer esconderijo…

  2. Andreia Santana  Says:

    Bela análise, Vera. Uma contribuição generosa ao post. Abraços e obrigada :)

  3. Mais investimento para a leitura nacional no Dia Mundial do Livro  Says:

    [...] cujo centenário é este ano, e Machado de Assis, que teve  uma de suas obras citadas como uma das preferidas do cineasta Woody Allen. Na safra mais recente de autores, vale lembrar que um romance de Cristóvão Tezza está [...]

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