Dez livros sobre amores inesquecíveis

postado por Andreia Santana @ 1:37 AM
13 de junho de 2012

Pensei no Dia dos Namorados, comemorado nesta terça e deu vontade de fazer uma lista de livros que contam belas histórias de amor. Mas não queria fazer qualquer lista, com dicas pré-fabricadas e enviadas por uma assessoria de imprensa. Tampouco queria o lugar comum dos romeus e julietas e twilights da vida. Não que eu não goste do clássico imortal de Shakespeare ou não reconheça o fenômeno literário de Stephenie Meyer, mas queria fugir do óbvio. Queria uma lista de livros que eu já tivesse lido e que tivessem me tocado pela força de suas histórias e o carisma dos casais protagonistas. Fui futucar minha página na rede social Skoob (que reúne bibliófilos), onde registro o acervo de tudo o que já li na vida e que consigo me lembrar, claro. Separei dez livros que vão dos clássicos aos infanto-juvenis, que contam histórias de amor de uma forma pouco convencional. Histórias cheias de delicadeza, com um pouco de lágrimas, muito riso e principalmente, histórias capazes de nos fazer acreditar que o amor não é só coisa de romance. Abaixo, indico os nomes dos escolhidos, não em ordem de importância, mas apenas do que fui lembrando ou pinçando na Skoob. As pequenas sinopses em cada dica foram feitas com base nas minhas leituras e nas resenhas que escrevi para a maioria dessas obras. Espero que gostem da seleção e que também indiquem que lista fariam. A caixa de comentários é de vocês!

Memorial do Convento – José Saramago – A saga de Balthasar Mateus Sete Sóis e de Blimunda “Sete Luas”, sua inquietante companheira, figura, ao menos para mim, como um dos romances mais bem construídos, delicados e comoventes da literatura. A presença do padre Bartolomeu de Gusmão (figura real da história, com origem no recôncavo baiano), como coadjuvante dessa aventura de um homem e uma mulher em suas andanças pelo mundo, torna o livro uma das obras-primas não só do autor português, porque dele é difícil enumerar as obras-primas, todas merecem o título, mas da literatura contemporânea… (para ler resenha completa, o link é este)

Luna Clara e Apolo 11 – Adriana Falcão – Este é de uma autora brasileira. Luna Clara é filha do casal Doravante e Aventura. Ela vive numa casa muito estranha, com um avô, a mãe e o papagaio filósofo Pilhério, na cidade de Desatino do Norte. Do outro lado, em Desatino do Sul, vive o tímido Apolo 11, filho de Apolo 10. Os dois vão se encontrar no Meio do Mundo. Adriana Falcão dispensa apresentações e sua incursão na literatura infanto-juvenil é um gostoso romance fresco como a juventude, com elementos da cultura popular brasileira e com final surpreendente…

Mil coisas podem acontecer – Jacobo Fernandez Serrano – Esse é recém-lançado e fiz resenha aqui no blog há pouco tempo. Destaco esse trechinho da resenha: Lina e Pouco, os protagonistas, merecem um fã-clube. Do começo ao final da saga dos dois amantes para finalmente ficarem juntos, sem que guerras sem sentido ou nuvens de água salgada os afastem, o leitor se emociona, vibra, ri, quase chora de frustração e avança, página por página, até… (se eu contar perde a graça!)

A garota das laranjas – Jostein Gaarder – Este é uma belíssima carta de amor contada em forma de romance. Uma declaração de afeto incondicional de um pai morto para seu filho adolescente, de um homem para uma mulher e de um ser humano em seus últimos dias para a vida. Tentando evitar que o filho se torne mais um na multidão, um pai com uma doença terminal decide deixar-lhe uma longa carta, contando-lhe de uma grande paixão vivida na juventude e mostrando de que forma o amor o salvou de uma existência medíocre… (aqui tem a resenha)

Julieta – Anne Fortier – Este recria o mito de Romeu e Julieta, mas vai além de um pastiche (obra em que um autor recria ou reconta à sua maneira uma história clássica). O livro conta a história das gêmeas Julie e Jeanice, duas jovens que nasceram em Siena, mas após a morte dos pais, foram criadas por uma tia-avó nos Estados Unidos. Com a morte dessa parenta, Julie, agora com 25 anos, descobre que na verdade se chama Giulietta Tolomei e que em Siena existe um misterioso tesouro deixado por sua mãe. O tesouro teria relação com o trágico fim de um jovem chamado Romeu Marescotti e de sua amada Giulietta Tolomei, de quem Julie herdou o nome. Os dois seriam os supostos personagens reais que inspiraram Shakespeare a escrever sua famosa obra… (também fiz resenha aqui no blog)

Estrangeira – Sonia Rodrigues – Afundada nos problemas pessoais e afetivos, Eilenora é levada a enxergar a própria vida e o amor por outro ângulo quando descobre alguns disquetes em uma antiga casa de veraneio, que seriam o diário eletrônico de sua mãe, morta há 11 anos…(resenha aqui)

A vida secreta de uma mãe caótica – Fiona Neill – Quem pensa que mãe e sedução são palavras incompatíveis no dicionário é bom rever os conceitos. A maternidade contemporânea vista sob a perspectiva da escritora britânica Fiona Neill abre espaço para a sexualidade e o desejo em meio a fraldas e mamadeiras. Inspirada em uma coluna que mantém no jornal The Times, na Inglaterra, a autora une elementos de comédia romântica e reflexões sobre o ser mãe x o ser mulher nos tempos modernos. E nos apresenta Lucy, uma divertida anti-heroína que tenta dar conta do marido, três filhos, tarefas domésticas, vida social, dramas familiares e ainda arranja tempo para cair em tentação e se apaixonar por um pai da escola das crianças… (fiz resenha aqui no blog também)

Orgulho e preconceito – Jane Austen – O universo do livro é o mesmo da Inglaterra rural e das caçadoras de marido que consagrou Austen como hábil cronista do cotidiano de seu tempo. Mas, neste livro  em especial, a ousadia dela foi mais longe do que se esperaria de uma jovem casta, filha de um pastor anglicano e nascida no final do século XVIII. Jane fala com desenvoltura do amor, do desejo reprimido, da energia feminina, da sensualidade aprisionada em espartilhos que mal deixavam as damas respirarem. Por baixo da maquiagem e das incontáveis peças de roupa que impediam o contato mais direto de homens e mulheres (e aqui contato direto é um simples abraço ou aperto de mão sem a luva no meio), ela explode em desejo. E ainda, sem trocar um único beijo, fascinante! (resenha completa aqui)

A trilogia do amor – Betty Milan – O amor que esvazia-se e vive apenas do desejo, aquele que só se realiza na fantasia e o que se completa mesmo à distância por laços de afeto que não excluem nem o desejo e nem a fantasia. Definir o amor é pretensão, mas a psicanalista e escritora Betty Milan, com a experiência em falar do tema dentro e fora do consultório, ao invés de definições, faz digressões em prosa-poética para o que o poeta Camões batizou de “o fogo que arte sem se ver” (mais na resenha completa)

O mistério da estrela – Neil Gaiman – O autor britânico cria um belo conto de fadas que não fica devendo nada aos Clássicos de Grimm. Um jovem, morador de um vilarejo isolado que uma vez por ano recebe uma misteriosa feira itinerante de criaturas mágicas, parte em busca de uma estrela cadente para oferecer como presente de aniversário à sua amada. Na sua jornada, ele enfrenta diversos perigos, descobre o passado de sua família e se apaixona pela estrela…


Resenha: Julieta (Anne Fortier)

postado por Andreia Santana @ 11:23 PM
31 de janeiro de 2011

Romeu e Julieta para além das fronteiras de Verona… e do tempo
Em thriller que lembra O código Da Vinci, Anne Fortier recria a saga da jovem heroína da imortal história de amor de William Shakespeare

Romeu e Julieta é uma história que pertence ao panteão dos mitos literários e, portanto, é intocável e irretocável, certo? Nem tanto. Embora não se atreva a reescrever a obra mais famosa de William Shakespeare, a dinamarquesa Anne Fortier, em seu romance de estreia, vem causando tanta sensação quanto Dan Brown na época em que lançou O código Da VinciJulieta, publicado no Brasil pela Sextante, a mesma editora das obras de Brown em português, mostra que nestes tempos de pouca novidade e muita reconfiguração, nem a heroína trágica do bardo inglês escapa a uma revisada.

Para o caso dos mais puristas já terem torcido o nariz, aviso: Julieta é bem mais interessante do que uma mera imitação da obra original. Dando mostras de conhecer bem o terreno onde pisa – nesse caso, a bibliografia de Shakespeare -, Anne Fortier cria um thriller de suspense que não visa necessariamente recontar Romeu e Julieta, mas mostrar outros ângulos da malfadada história de amor. É ficção verossímil, inteligente, envolvente, de leitura rápida e fluída, mas que funciona também como um tributo ao bardo.

O livro conta a história das gêmeas Julie e Jeanice, duas jovens que nasceram em Siena, mas após a morte dos pais, foram criadas por uma tia-avó nos Estados Unidos, desde os três anos de idade. Com a morte dessa parenta, Julie, agora com 25 anos, descobre que na verdade se chama Giulietta Tolomei e que em Siena existe um misterioso tesouro deixado por sua mãe. O tesouro teria relação com o trágico fim de um jovem chamado Romeu Marescotti e de sua amada Giulietta Tolomei, de quem Julie herdou o nome. Os dois seriam os supostos personagens reais que inspiraram Shakespeare a escrever sua famosa obra. Após a hesitação inicial, Julie/Giulietta se muda para a Itália e começa a busca pelo tesouro, mas acaba na mira da máfia e às voltas com os efeitos de uma maldição que pesa sobre seu nome há 600 anos.

A mistura parece impossível de dar certo, mas para quem busca uma boa leitura de entretenimento, funciona muito bem. Com maestria, a autora descreve a Siena do século XXI, uma cidade ainda apegada às tradições medievais e de grande beleza histórica, mas em eterno conflito entre passado e presente. A narrativa intercala as agruras e aventuras da Giulietta contemporânea com os trechos do diário de um pintor do século XIV, verdadeira testemunha ocular do fim trágico de sua antepassada.

Mas se Romeu e Julieta (o romance de Shakespeare, que na verdade foi escrito para o teatro) se passa em Verona, por que este recria o mito em Siena? Tem explicação para a pergunta e até embasamento histórico. Segundo Anne Fortier, no posfácio de seu livro, existe uma tradição sienense que dá conta de relatos pré-Shakespeare sobre um triste caso de amor, traição e morte, ocorrido no século XIV e envolvendo famílias que governavam a Siena medieval. A cidade toscana teria sido uma das mais violentas na Idade Média e para quem ainda se lembra das aulas sobre Feudalismo, a Itália enquanto nação só passa a existir do século XIX para cá. Antes dessa época, o país era dividido em diversos reinos que disputavam poder e território em sangrentos embates e conspirações. Rivalidade de família era praticamente lei.

Apontado pela critica internacional como uma versão feminina do mais que pop O código Da Vinci, Julieta, embora siga a mesma cartilha dos romances com um pé na literatura de suspense-policial e outro pé no romance “histórico”, tem méritos próprios. A reconstituição de época é cuidadosa e a personagem principal tem uma história pessoal, dramas familiares não resolvidos e limitações que a tornam bem mais carismática do que o simbologista Robert Langdon. Rende um bom roteiro de sessão-pipoca. Para fechar com chave de ouro, lógico, existe um Romeu moderno para essa Giulietta que usa jeans e camiseta. Mas se o final faz jus a Shakespeare, só lendo para descobrir…

Ficha técnica:
Julieta
Autora:Anne Fortier

Tradução: Vera Ribeiro

Editora: Sextante

448 páginas / Preço: R$ 39,90