Livro reúne contos sobre fantasias eróticas femininas

postado por Andreia Santana @ 10:15 PM
14 de fevereiro de 2012

A escritora e jornalista argentina Alicia Gallotti é conhecida por suas versões para o Kama Sutra, cujas traduções foram publicadas em 15 países. Agora, ela usa o conhecimento sobre a sexualidade para lançar Nossas Fantasias Mais Íntimas (Editora Planeta), livro que reúne cinco contos protagonizados por mulheres que vivem relacionamentos tórridos, que além de uma festa para os sentidos, conduz também ao autoconhecimento.

Alicia, autora também de Brinquedos Eróticos (outra publicação da Planeta) entende o erotismo como uma das fontes naturais mais gratificantes da vida e uma forma de harmonizar o fluxo de energia vital, daí que neste novo livro, usa esse conhecimento para criar personagens como Olga, profissional que alterna períodos de calmaria com muito estresse profissional e que vive um relacionamento conturbado. Até que numa viagem ao exterior se envolve com um desconhecido. Ou Sandra, que embora tenha uma vida sexual satisfatória com o namorado, descobre-se interessada em outra mulher. Personagem de outro conto, Laura trabalha em Nova York e divide-se entre preparar uma festa para o irmão mais novo e viver um caso com um ex-amigo de infância em crise no casamento, enquanto secretamente deseja seu novo estagiário. Outra história é a de Marta, casada há 21 anos com um homem que não consegue satisfazê-la sexualmente. Na última história do livro, Alicia Gallotti mostra as fantasias da personagem Ana, advogada que mantêm um relacionamento em vias de esfriamento e que descobre-se apaixonada por um advogado rival nos tribunais.

Embora foque nas fantasias sexuais das protagonistas, o livro também não deixa de falar da feminilidade contemporânea e dos muitos papeis que as mulheres assumem voluntariamente ou por acomodação, como o da esposa que se contenta com um marido indiferente na cama. Misturando ficção com uma pitada de “a vida como ela é”, a autora se propõe a explorar diversos temas como relacionamentos frustrados, orientação sexual, crises conjugais e desejos reprimidos.

Ficha Técnica
Nossas fantasias mais íntimas
Autor: Alicia Gallotti
Editora Planeta
208 páginas
Preço: R$ 29,90

Em tempo: Por falar em Planeta, um escritor publicado pela editora no Brasil, o norte-americano James Shapiro, autor de 1599 – Um ano na vida de William Shakespeare,  está confirmado para participar da FLIP – Festa Literária de Paraty – 2012, que acontecerá entre os dias 4 e 8 de julho. Shapiro é o segundo estudioso da obra do escritor britânico a ser anunciado na programação, ao lado do também norte-americano Stephen Greenblatt. Além deles, estão confirmadas até o momento as participações dos escritores Ian McEwan, Jennifer Egan, Jonathan Franzen, Enrique Vila-Matas, Zoé Valdez e Javier Cercas. Em 1599 – Um ano na vida de William Shakespeare, lançado no Brasil em 2011, ao focar em um único ano da vida do bardo inglês, James Shapiro traça um retrato amplo de toda a sociedade, de suas realizações e da época em que o dramaturgo viveu.


Dica de leitura do dia: Amigas da Ioga

postado por Andreia Santana @ 8:55 PM
26 de setembro de 2011

Os produtores de Marley e Eu e O diabo veste Prada, ambos sucessos do cinema saídos do universo literário, já compraram os direitos de adaptação de Amigas da Ioga, o livro escolhido para ser o indicado do dia aqui no blog. Lançado no Brasil pela Lua de Papel, Amigas da Ioga, de Rain Mitchell, conta a história de cinco mulheres com vidas totalmente diferentes, mas que por frequentarem o mesmo centro de ioga, tornam-se grandes amigas.

Ambientado em Los Angeles, o livro apresenta aos leitores Lee, a dona do estúdio Endedale Ioga, que passa por dois dilemas: uma crise conjugal e problemas financeiros que podem acabar com seu negócio. Katherine, a massagista do estúdio, iniciou um novo relacionamento que pode ser perfeito, mas que ela pode sabotar a qualquer momento. Somam-se ao grupo, Imani, uma atriz bem sucedida, que luta para superar uma grande perda; Stephanie, uma talentosa, mas insegura escritora; e Graciela, dançarina que precisa vencer uma lesão para conquistar o trabalho de seus sonhos. A amizade das cinco e os fundamentos da ioga irão ajudá-las a superar dificuldades e seguir em frente.

A autora utiliza o cotidiano das grandes metrópoles, os dilemas da feminilidade nos tempos pós-contemporâneos e pinceladas de autodescoberta, amor e amizade para construir uma narrativa simples, mas ao mesmo tempo profunda e intrincada, como a vida. Para quem gosta dessas histórias confortáveis, fincadas no dia-a-dia e que busca o inusitado mesmo em aparentes lugares-comuns, o livro é uma boa pedida. Ao menos, na versão cinematográfica, que ainda não tem data de estreia, vale as referências de Marley e Eu e O diabo veste Prada, duas comédias bem gostosinhas.

Ficha Técnica:
Amigas da Ioga

Autora: Rain Mitchell

Tradução: Alice Klesck

256 páginas

Preço sugerido: R$29,90


Bons lançamentos para a meninada

postado por Andreia Santana @ 6:25 PM
24 de junho de 2011

Três dicas do Luz sobre a escrivaninha para o público infanto-juvenil. Anotem aí e boa leitura neste feriadão:

Mistério fedorento

Um misterioso fedor toma conta da pensão da dona Pirapitinga, uma senhora de hábitos higiênicos duvidosos. A catinga se torna insuportável e os hóspedes iniciam uma investigação, mas acabam descobrindo muito mais do que a origem do mau cheiro. Catinga na Pensão Pirapitinga, do autor e ilustrador Cláudio Martins, envolve as crianças em uma narrativa bem-humorada, cheia de rimas e trocadilhos. O livro integra a coleção Hora Viva, da Editora Positivo.

Ficha Técnica

Catinga na Pensão Pirapitinga

Autor e ilustrador: Cláudio Martins

Editora Positivo

32 páginas

Indicação: A partir de 8 anos

Preço: R$25,40

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Profissão esquisita

A narrativa se ambienta no século XIX, em 1888, e conta a história de Will Henry, um garoto de 12 anos, órfão de pai e mãe, que cresceu acompanhando a saga do Dr. Pellinore Warthrop, especialista em uma ciência diferente, pouco conhecida e, acima de tudo, assustadora: a Monstrologia – estudo dos monstros reais. Um trabalho perigoso e sombrio, assim como os visitantes recebidos pelo Dr. Warthrop. O Monstrologista, primeiro volume de uma trilogia infanto-juvenil, é do autor Rick Yancey e no Brasil tem tradução de Ana Carolina Mesquita. A obra ganhou o Prêmio Michael L. Printz de literatura juvenil nos Estados Unidos.

Ficha técnica:

O Monstrologista

Autor: Rick Yancey

Tradutora: Ana Carolina Mesquita

474 páginas

Editora Farol Literário

Preço: 42,90

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Sorveteiroooo!

O carro de sorvete, de Julie Bertagna, com ilustrações de Chambers e Dorsey, conta a história de dois irmãos que aprenderam o valor da amizade vivendo experiências incríveis dentro do “Balancê”, a van-sorveteria comprada pelos seus pais. Em 2004, a narrativa serviu de inspiração para a série de TV ‘The ice-cream machine’, veiculada no Reino Unido. Em meio a várias aventuras, peripécias e desafios vividos pelas personagens, o pequeno leitor descobre a importância da união familiar.  Waney e Wandy, protagonistas da história, fazem parte de uma família bastante comum a não ser pelo fato de que ao invés de um cachorro como animalzinho de estimação, eles têm Gina, uma cabra, a única que ficou depois que os planos de seus pais de formarem uma criação de caprinos não deu certo. Assim os pais partem para um novo negócio ao comprarem uma van mágica, encostada em um ferro velho, a van-sorveteria, com sorvetes diferentes e sabores inusitados…

Ficha técnica:

O Carro de Sorvete

Autor: Julie Bertagna

Ilustrador: Chambers e Dorsey

88 páginas

Editora Farol Literário

Preço: R$ 16,90


Dica de leitura do dia: Menonita do vestidinho preto

postado por Andreia Santana @ 10:24 PM
20 de junho de 2011

“Vestindo aquelas saias menonitas severas, eu fitava com desejo as roupas claras e transparentes de minhas colegas de classe (…). Minha mãe trançava os meus cabelos tão apertado que as minhas sobrancelhas se curvavam. Isso me conferia uma aparência de saudável doença mental, como Joan Crawford em Mamãezinha Querida. (…) Alguém pode, por favor, me dizer por que os maridos parecem nunca abandonar suas esposas até que elas desenvolvam varizes do tamanho de um aqueduto romano? É como se eles estivessem esperando pela veia. Se nossos maridos vão nos abandonar para ficar com caras chamados Bob, por que eles não o fazem antes das varizes, quando ainda somos jovens e belas? ”

Rhoda Janzen

O trecho acima, que usa humor e ironia para falar de um tema tabu (mulheres que descobrem que os maridos são gays após décadas de casamento) é do livro Menonita de Vestidinho Preto, lançado no Brasil pela Editora Nossa Cultura. Escrito pela poeta e professora de literatura norte-americana Rhoda Janzen, a obra conta sua história. Aos 42 anos, Rhoda possuia um trabalho gratificante, uma linda casa à beira de um lago e um marido brilhante com quem estava casada havia quinze anos. Mas de repente, o mundo virou de cabeça para baixo: o marido anunciou que a estava abandonando para ficar com um homem que ele tinha conhecido pela internet apenas dois meses depois da mudança para a nova – e cara – casa, que ela não tinha como pagar sozinha. Na mesma semana, um acidente de carro a deixou com ferimentos graves. Abandonada e quebrada – física e financeiramente -, ela decidiu passar uma temporada na casa de seus pais, em uma comunidade menonita.

As memórias da autora comovem pela humanidade e sinceridade. Ao lado da família, ela relembra a infância em uma comunidade fechada (menonitas e Amish são grupos religiosos que seguem rígidos códigos de moral e conduta) e mostra que muitas vezes, voltar às próprias raízes pode ser a resposta para se reerguer em momentos de crise extrema. No livro, Rhoda fala de fé, amor, família e envelhecimento.

Ficha Técnica:

Menonita de Vestidinho Preto

Autor: Rhoda Janzen

Tradução:  Paulo Roberto Maciel Santos

272 páginas

Preço: R$ 35,00


Livro discute o papel da mulher na familia

postado por Andreia Santana @ 8:26 PM
12 de junho de 2011

Cena de Potiche: Esposa Troféu. Longa protagonizado por Catherine Deneuve discute, com humor ácido, o universo das "superesposas"

Com base em sua própria história e em depoimentos colhidos entre mais de 1.500 casais em todo o mundo, a escritora Carin Rubenstein explora em Livre-se da síndrome da superesposa (Editora Gente), o comportamento de mulheres que atuam como a “gerente doméstica”, atraindo para si todas as funções e responsabilidades da casa e, tanto os filhos como o marido passam a ser meros coajuvantes.

As superesposas atuais são mulheres que acumulam funções e, com a mesma destreza com que se relacionam no ambiente de trabalho, cuidam das decisões cotidianas e definem o cardápio do jantar. Mas, segundo Carin, o casamento moderno ainda trazem traços comportamentais que datam da Idade Média.

A obra contesta a superioridade da mulher que “faz tudo”, enquanto critica a ineficiência dos marido que se acomodam diante da superesposa e permitem que ela conduza a casa, a educação dos filhos e todas as decisões que deveriam ser tomadas em conjunto.

A partir de ampla pesquisa, que abrangeu desde questionários e entrevistas, até leitura de uma extensa bibliografia, autora apresenta seis sinais que identificam a superesposa; aborda a biologia e a psicologia por trás da “superioridade feminina”; define os tipos de casamento e avalia o comportamento dos maridos, frente à mulher que “está sempre certa”. Também fala sobre a vida sexual da superesposa, a maioria das vezes insatisfatória e, finalmente, ensina o que se deve fazer para resgatar o casamento, fugindo do estereótipo desse tipo de mulher.

A grande mensagem do livro é informar o leitor de que mulheres e homens devem exercer papeis similares no relacionamento, para evitar que a balança pese negativamente para um dos lados, quebrando a harmonia da relação e consequentemente, minando o amor e o interesse.

Quem é: Carin Rubenstein é jornalista e Ph.D. em psicologia pela Universidade de Nova York. Autora de vários livros sobre comportamento, escreve para revistas femininas e para o The New York Times. Casada, tem dois filhos e mora com a família em Westchester County – NY.

Ficha técnica

Livre-se da síndrome da superesposa

Carin Rubenstein

Editora: Gente

408 páginas

Gênero: Relacionamento / Comportamento

Preço sugerido: R$ 39,90


Selo negro lança biografia de Lima Barreto

postado por Andreia Santana @ 8:18 PM
12 de maio de 2011

O escritor Lima Barreto é o mais novo biografado pela coleção Retratos do Brasil Negro, iniciativa da Selo Negro Edições que tem por objetivo valorizar personalidades e expoentes da cultura afro-brasileira. Autor de grandes clássicos da literatura nacional e um dos primeiros jornalistas brasileiros a denunciar a violência contra a mulher, Lima Barreto produziu romances, novelas, contos, crônicas e diários, mas o devido reconhecimento só veio décadas após sua morte.

Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922) entrou para a galeria dos escritores “malditos” ao usar uma linguagem coloquial e criticar abertamente a sociedade hipócrita e racista de sua época. Autor de obras-primas como Triste fim de Policarpo Quaresma e Recordações do escrivão Isaías Caminha, foi duramente rechaçado pelos críticos da sua época. O livro Lima Barreto, sétimo volume da coleção, foi escrito pelo pesquisador Cuti, pseudônimo do doutor em literatura e escritor Luiz Silva. Na obra, o biográfo analisa a produção barretiana e mostra a atualidade dos problemas que ele apontou no início do século XX.

Considerado um dos representantes máximos do pré-modernismo, Lima Barreto criou personagens inesquecíveis como o quixotesco major Quaresma e a ingênua Clara dos Anjos. Seus escritos sempre denunciaram o papel marginal a que negros e negro-mestiços eram relegados em sua época. Crítico do racismo, da burocracia, da corrupção, sofreu, ao longo da vida, diversos preconceitos, aos quais respondeu com uma obra vigorosa. A lucidez com que retrata os primeiros anos do século XX tornou-se fonte de amplas reflexões para educadores, pesquisadores e militantes do movimento negro. Sem contar que boa parte do que escreveu continua atualíssimo no Brasil do século XXI.

A Coleção Retratos do Brasil Negro é coordenada por Vera Lúcia Benedito, mestre e doutora em Sociologia/Estudos Urbanos pela Michigan State University (EUA) e pesquisadora dos movimentos sociais e da diáspora africana no Brasil e no mundo. Além de Lima Barreto, já foram biografados: Abdias Nascimento, João Candido, Lélia Gonzalez, Luiz Gama, Nei Lopes e Sueli Carneiro.

Cuti, o autor deste novo volume, nasceu em Ourinhos (SP) e mora na capital paulista. Formado em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), é mestre em Teoria da Literatura e doutor em Literatura Brasileira pelo Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Foi um dos fundadores da organização literária Quilombhoje e um dos criadores e mantenedores da série Cadernos Negros. É autor, entre outros, de Poemas da carapinha (1978); Quizila (1987, contos); Dois nós na noite e outras peças de teatro negro-brasileiro (1991); Negroesia (2007, poemas); Contos crespos (2008); Moreninho, neguinho, pretinho (2009, ensaio); e Literatura negro-brasileira (2010).

Ficha técnica:
Lima Barreto – Coleção Retratos do Brasil Negro

Autor: Cuti

Coordenadora da coleção: Vera Lúcia Benedito

Editora: Selo Negro Edições

Preço: R$ 22,00 / 128 páginas

*Com informações enviadas pela editora.


Resenha: A menina que não sabia ler (John Harding)

postado por Andreia Santana @ 6:40 PM
11 de abril de 2011

Um grande gole na fonte do bom e velho Poe

Finais em aberto ou desfechos inesperados não costumam cair no gosto do leitor médio. Mas as opiniões contrárias ao livro A menina que não sabia ler partem de um mal entendido da tradução em português, que por um equívoco na titulação, associa essa obra de John Harding ao magistral A menina que roubava livros (Marcus Zusak). No entanto, o erro não é do autor de Florence and Giles, o título original de A menina que não sabia ler. Conhecendo esse título, é bem mais fácil compreender as intenções do autor.

Primeiro, é importante ressaltar que o livro de Harding não tem a menor semelhança com a história comovente de Liesel Meminger, personagem principal de A menina que roubava livros. Portanto, quem vai ler um pensando no outro, limpe a mente a abra-a para uma experiência diferente. A única coincidência entre um e outro é que as duas obras falam do fascínio da leitura, mas por caminhos próprios. Enquanto Zusak ambienta sua obra na Alemanha nazista, por exemplo, John Harding escolhe a Nova Inglaterra (Virgínia) do final do século XIX para tecer a aura de mistério que envolve sua trama.

No entanto, Florence, a personagem principal de Harding, lembra sim uma outra protagonista da literatura. A mim, ao menos, parece tão dissimuladamente cativante quanto a Fany de Jane Austen (Mansfield Park). E não é só uma justa homenagem ao lado obscuro e subentendido de Fany que o autor de A menina que não sabia ler faz nesta obra. Usando os clichês da literatura de suspense de forma bastante inteligente, ele rende uma justa homenagem a atmosfera sombria e lúgubre das obras de Edgar Allan Poe.

Mansão decrépita do filme The Changeling (1981), poderia ser o cenário perfeito para A menina que não sabia ler

Muita gente tem dito que o livro bebe na fonte de A volta do parafuso. Mas, honestamente, há apenas um perfume de Henry James, algo bem sutil, que paira no ar e nos recônditos da velha mansão decadente que serve de cenário ao drama de Florence e de seu irmãozinho Giles.

A menina que não sabia ler é Edgar Allan Poe até a medula. Não à toa, Florence é fã do escritor. A descrença na humanidade presente nas obras de Poe, além de seus personagens atormentados, a loucura e o que se esconde na escuridão, seja de um quarto ou da mente de uma criança abandonada à própria sorte, são o pano de fundo dessa narrativa que no fundo fala mesmo é da solidão, da indiferença dos adultos e do quanto um amor incondicional, como o de uma irmã mais velha pelo irmãozinho, podem ser uma combinação perigosa se não existe um ponto de equilíbrio.

Os livros, alimento para a imaginação, ao invés de consolar como no caso de Liesel Meminger, em A menina que não sabia ler servem apenas de combustível para queimar ressentimentos adormecidos desde a mais tenra infância.

Além de me lembrar Fany, com sua doçura calculada e por vezes cínica, Florence também me lembra Bentinho, personagem de Don Casmurro (obra ícone de Machado de Assis). Isso porque, narrado em primeira pessoa, pela própria Florence, o livro só nos mostra uma perspectiva das coisas, e sempre sob o ponto de vista imaginativo dela. Se em Dom Casmurro somos levados a desconfiar de Capitu graças aos ciúmes e as distorções de percepção que o sentimento provoca no olhar de Bentinho; em A menina que não sabia ler, embarcamos, até certo ponto, nos devaneios solitários de Florence, atiçados pelos livros que leu e pela negligência de quem deveria cuidar dela. Vemos a mansão, Giles e principalmente os adultos, sob o foco da menina.

O golpe de mestre de John Harding é levar o leitor em banho-maria, fazendo-o acreditar que está diante de uma coisa, de um “conto sobre a doce órfã Anne”. Mas pouco a pouco, a cortina é descerrada, provocando incredulidade e até repulsa. Essa transição porém, não é feita de maneira improvisada. Os indícios, para o bom entendedor, estão visíveis ao longo do livro. Como um hábil artífice, ele constrói sua trama fio a fio e enreda o leitor, tornando-o um cúmplice involuntário. E aqui, nesse joguinho hábil de mostra e esconde, ele lembra a dama Agatha Christie.

Vale ainda ressaltar que, embora com tantas citações a gêneros e autores célebres, A menina que não sabia ler tem ritmo e encanto próprios. Não é imitação, mas reverência aos mestres. Por ser ambientado no século XIX e narrado por uma personagem desta época, o livro tem ainda uma linguagem que em certos momentos parece revestida do pó solene do tempo. O que para mim ao menos, é um molho a mais.

Ficha Técnica:

A menina que não sabia ler (Florence and Giles)

Autor: John Harding

Editora: Leya

288 páginas

R$ 39,90


Dica de leitura do dia: Uma burca por amor

postado por Andreia Santana @ 4:42 PM
14 de março de 2011

Para os leitores que gostam de histórias baseadas em fatos reais, Uma burca por amor, best seller da jornalista e escritora espanhola Reyes Monforte, conta a saga de María Galera, espanhola radicada em Londres, onde conheceu o marido, o muçulmano afegão Nasrad. María enviou seu relato para o programa de rádio apresentado por Monforte e assim, o mundo ficou conhecendo a história trágica da moça. Só na Espanha, o livro vendeu 300 mil exemplares. No Brasil, o lançamento, em janeiro de 2011, chega pela editora Planeta.

María Galera e o marido Nasran sempre viveram em Londres, onde se conheceram, até que ele precisou viajar para o Afeganistão, devido a doença do pai. A esposa o acompanhou, mas os dois foram assaltados, perdendo os documentos e com isso ficando impedidos de retornar à Inglaterra. Vivendo no Afeganistão, os dois tiveram de se submeter ao regime do talibã. Maria, embora pudesse retornar à Espanha, seu país de origem, preferiu ficar ao lado do marido afegão e adotou a burca (traje que cobre as mulheres da cabeça aos pés) e todos os demais preceitos impostos pelo Talibã, enquanto isso, a jovem, tenta sensibilizar as autoridades internacionais para que ela e o marido possam voltar para casa.

O livro traz o relato da luta de María e também uma crônica dos horrores que ela presenciou no Afeganistão. Na Espanha, o livro de Reyes Monforte transformou-se em programa de TV.

Ficha Técnica:

Uma Burca por Amor

Autora: Reyes Monforte

Editora Planeta

304 páginas

Preço: R$ 39,90


Dica de leitura do dia: O Jardim dos últimos dias

postado por Andreia Santana @ 9:19 PM
10 de março de 2011

Jennifer Conelly e Ben Kingsley em cena de "Casa de areia e névoa"

O Jardim dos últimos dias é o livro que escolhi para retomar a série Dica de leitura do dia aqui do blog. Trata-se da nova obra de Andre Dubus III, mesmo autor do premiado Casa de Areia e Névoa, que foi adaptado para o cinema em um belíssimo filme protagonizado por Ben Kingsley e Jennifer Connelly. Nesta nova obra, o tema explorado é o 11 de Setembro, que  completa 10 anos agora em 2011. O  livro, no Brasil, sai pela Record e é da editora a sinopse abaixo:

“Baseado nos rumores de que um dos terroristas teria vivido os prazeres da sociedade ocidental dias antes dos atentados, o autor destrincha a sociedade norte-americana numa história de acasos e escolhas.  A partir da vida de April, mãe da pequena Franny e dançarina numa boate de striptease na Flórida, onde o árabe Bassam busca satisfação antes de matar e morrer em nome da estrita fé islâmica, Dubus mostra que estavam todos, a seu modo, em busca de redenção.

Numa noite de setembro de 2001, na Flórida, a stripper April é obrigada a deixar sua filha pequena com a gerente do Clube Puma, a boate em que trabalha, quando a babá fica doente. É lá que Lonnie, o leão de chácara, evita que os atrevidos desrespeitem as dançarinas. É onde AJ, operador de escavadeira, tenta esquecer seus problemas familiares. Onde o árabe Bassam procura os prazeres negados pelo rigor do islamismo: álcool, cigarro e mulheres”.

O Autor - O californiano Andre Dubus III recebeu uma bolsa da Fundação Guggenheim e os prêmios National Magazine e Pushcart por Casa de Areia e Névoa. Ele mora com a família no norte de Boston e é professor adjunto da University of Massachusetts Lowell.

Ficha Técnica:
O jardim dos últimos dias

Autor: Andre Dubus III

Tradução: Marcelo Barbão

Grupo Editorial Record | Editora Record

476 páginas / Preço: R$ 67,90


Resenha: Julieta (Anne Fortier)

postado por Andreia Santana @ 11:23 PM
31 de janeiro de 2011

Romeu e Julieta para além das fronteiras de Verona… e do tempo
Em thriller que lembra O código Da Vinci, Anne Fortier recria a saga da jovem heroína da imortal história de amor de William Shakespeare

Romeu e Julieta é uma história que pertence ao panteão dos mitos literários e, portanto, é intocável e irretocável, certo? Nem tanto. Embora não se atreva a reescrever a obra mais famosa de William Shakespeare, a dinamarquesa Anne Fortier, em seu romance de estreia, vem causando tanta sensação quanto Dan Brown na época em que lançou O código Da VinciJulieta, publicado no Brasil pela Sextante, a mesma editora das obras de Brown em português, mostra que nestes tempos de pouca novidade e muita reconfiguração, nem a heroína trágica do bardo inglês escapa a uma revisada.

Para o caso dos mais puristas já terem torcido o nariz, aviso: Julieta é bem mais interessante do que uma mera imitação da obra original. Dando mostras de conhecer bem o terreno onde pisa – nesse caso, a bibliografia de Shakespeare -, Anne Fortier cria um thriller de suspense que não visa necessariamente recontar Romeu e Julieta, mas mostrar outros ângulos da malfadada história de amor. É ficção verossímil, inteligente, envolvente, de leitura rápida e fluída, mas que funciona também como um tributo ao bardo.

O livro conta a história das gêmeas Julie e Jeanice, duas jovens que nasceram em Siena, mas após a morte dos pais, foram criadas por uma tia-avó nos Estados Unidos, desde os três anos de idade. Com a morte dessa parenta, Julie, agora com 25 anos, descobre que na verdade se chama Giulietta Tolomei e que em Siena existe um misterioso tesouro deixado por sua mãe. O tesouro teria relação com o trágico fim de um jovem chamado Romeu Marescotti e de sua amada Giulietta Tolomei, de quem Julie herdou o nome. Os dois seriam os supostos personagens reais que inspiraram Shakespeare a escrever sua famosa obra. Após a hesitação inicial, Julie/Giulietta se muda para a Itália e começa a busca pelo tesouro, mas acaba na mira da máfia e às voltas com os efeitos de uma maldição que pesa sobre seu nome há 600 anos.

A mistura parece impossível de dar certo, mas para quem busca uma boa leitura de entretenimento, funciona muito bem. Com maestria, a autora descreve a Siena do século XXI, uma cidade ainda apegada às tradições medievais e de grande beleza histórica, mas em eterno conflito entre passado e presente. A narrativa intercala as agruras e aventuras da Giulietta contemporânea com os trechos do diário de um pintor do século XIV, verdadeira testemunha ocular do fim trágico de sua antepassada.

Mas se Romeu e Julieta (o romance de Shakespeare, que na verdade foi escrito para o teatro) se passa em Verona, por que este recria o mito em Siena? Tem explicação para a pergunta e até embasamento histórico. Segundo Anne Fortier, no posfácio de seu livro, existe uma tradição sienense que dá conta de relatos pré-Shakespeare sobre um triste caso de amor, traição e morte, ocorrido no século XIV e envolvendo famílias que governavam a Siena medieval. A cidade toscana teria sido uma das mais violentas na Idade Média e para quem ainda se lembra das aulas sobre Feudalismo, a Itália enquanto nação só passa a existir do século XIX para cá. Antes dessa época, o país era dividido em diversos reinos que disputavam poder e território em sangrentos embates e conspirações. Rivalidade de família era praticamente lei.

Apontado pela critica internacional como uma versão feminina do mais que pop O código Da Vinci, Julieta, embora siga a mesma cartilha dos romances com um pé na literatura de suspense-policial e outro pé no romance “histórico”, tem méritos próprios. A reconstituição de época é cuidadosa e a personagem principal tem uma história pessoal, dramas familiares não resolvidos e limitações que a tornam bem mais carismática do que o simbologista Robert Langdon. Rende um bom roteiro de sessão-pipoca. Para fechar com chave de ouro, lógico, existe um Romeu moderno para essa Giulietta que usa jeans e camiseta. Mas se o final faz jus a Shakespeare, só lendo para descobrir…

Ficha técnica:
Julieta
Autora:Anne Fortier

Tradução: Vera Ribeiro

Editora: Sextante

448 páginas / Preço: R$ 39,90