Resenha: Amor em Cartas (Nair de Carvalho)

postado por Andreia Santana @ 11:17 AM
1 de outubro de 2013

Recordações de um amor construído com as palavras

Cartas de amor de Genaro para Nair de Carvalho revelam um tempo de romantismo lírico

Andreia Santana

A foto na capa de Amor em Cartas é de Clarice Lispector. A autora de Perto do Coração Selvagem, que era jornalista, foi uma das muitas pessoas a tentar traduzir em palavras o amor do artista plástico baiano Genaro de Carvalho pela bela Nair. Outro que também imortalizou o romance foi o pintor Carlos Bastos, autor de um quadro do casal. Mas nada como ler as palavras apaixonadas de Genaro para entender essa história de amor em particular e decifrar parte dos costumes da Bahia e do Brasil dos Anos Dourados.

Nair de Carvalho, amada, parceira de arte e musa eterna de Genaro

Abrir o coração para o amor sem medo de parecer ridículo, e Fernando Pessoa que perdoe, mas as cartas de amor não são ridículas, são apenas humanas, é fundamental para embarcar nesse romance. O livro traz um texto de introdução de Nair de Carvalho, que envolve o leitor no ambiente lírico e ingênuo de sua juventude, revelando os detalhes da divertida gafe que cometeu ao ser apresentada a Genaro.

Na sequência, são publicadas as missivas – Nair selecionou 30 ao todo – de próprio punho de Genaro de Carvalho, ora em letra tremida e urgente, ora com caligrafia exemplar, dando ideia do estado de espírito do seu autor. Ao longo das páginas da publicação, sucedem-se as cartas, enfeitadas com desenhos pintados com lápis de cera, trechos de pensamentos filosóficos, beijos marcados em batom e, principalmente, pela urgência de um “VENHA meu amor” escrito em maiúsculas, que ainda assim são letras pequenas para conter o tamanho do sentimento dos enamorados.

Colabora com o livro Alejandra Muñoz, que explica o delicado processo de transcrever cartas e esclarece que a obra buscou preservar os erros e a grafia vigente nos anos 50. Uma acertada decisão, tanto em respeito ao autor e ao amor que sentia, quanto uma forma de mostrar aos leitores as peculiaridades da evolução da língua portuguesa, a única no mundo a conter a força de uma palavra como saudade.

Quadro de Nair e Genaro feito pelo pintor Carlos Bastos

Em sequência, o leitor recebe a “chave” (transcrição das cartas) para ajudar na compreensão das mensagens. Vale ressaltar que a graça da leitura está em tentar decifrar a letra de Genaro e imaginá-lo, ansioso como só os amantes conseguem ser, a tecer aquelas linhas que se aprimoram carta após carta, da mesma forma que sua arte evoluiu graças ao convívio com a musa inspiradora Nair.

A própria forma de tratamento entre os apaixonados evolui e o leitor de Amor em Cartas torna-se testemunha do crescente sentimento que mistura admiração, carinho, respeito e um inflamado desejo. Os apelidinhos que Genaro coloca em Nair, seus cuidados com a saúde e o bem estar da amada que também é sua musa, a tristeza por ter recebido uma resposta menos empolgada da amada e as queixinhas típicas dos namorados divertem, enternecem e emocionam quem se dispõe a acompanhar a jornada do casal em busca de um final feliz.

Genaro e Nair moravam em cidades diferentes quando se conheceram e tiveram de vencer obstáculos tanto geográficos quanto das convenções sociais da época. Entre o primeiro encontro e o casamento foram dois anos, que a julgar pela intensidade das mensagens, para ele foi um tempo de verdadeiro tormento. Ele era recém desquitado, ela era uma moça de família, criada com os cuidados dispensados às moças na época e noiva de aliança no dedo. Ele era artista, o que na época também não o habilitava como o melhor candidato a marido e Nair era manequim, outra profissão mal compreendida.

Os percalços que tiveram de superar são entrevistos nas mensagens de Genaro, que encoraja sua amada a romper com as convenções e acreditar no amor que ele tem para oferecer. A persistência dele é comovente e em tempos de amores passageiros, inspiradora!

P.S.: Amor em Cartas, já divulgado em Salvador, será lançado em São Paulo nesta quarta, dia 2 de outubro, em evento cuja renda será revertida para uma ONG baiana que cuida de crianças com sequelas de queimadura (leia reportagem).

Ficha Técnica:

 Amor em cartas

Autora: Nair de Carvalho (org.) e colaboração de Alejandra Muñoz

Editora: Gruna

206 páginas


Resenha: Um gato de rua chamado Bob

postado por Andreia Santana @ 8:05 PM
26 de julho de 2013

Amizade confortável e quentinha como o chá das cinco

Livro sobre ex-viciado e gato de rua lidera lista dos mais vendidos e deve virar filme

Por Andreia Santana

Quando estão na rua, Bob gosta de passear encarapitado nos ombros de James

Bob é o equivalente felino ao labrador Marley, que virou febre mundial quando seu dono, o jornalista John Grogan, transformou as peraltices do cão em crônicas semanais no jornal onde trabalhava e depois em bestseller. Os dois bichos de estimação tem mais em comum do que o afeto incondicional de seus donos. Assim como Marley saiu da vida de John para os livros e destes para o cinema, as estripulias do gato Bob devem virar roteiro para um filme produzido pela mesma equipe de Marley & Eu.

O bichano chegará à telona com tantos fãs quantos admiram o colega canino. Em Londres, cidade de origem de James Bowen, autor de Um gato de rua chamado Bob, a história ficou 32 semanas na lista dos mais vendidos. No Brasil, o livro lidera as listas dos dez mais vendidos na categoria de não-ficção há nove semanas, segundo os rankings das revistas Veja e Época, e do site Publishnews.

Bob também está nas redes sociais: tem mais de 80 mil curtidores na fanpage do Facebook (www.facebook.com/StreetCatBob) e 37,8 mil seguidores no Twitter (@StreetCatBob), segundo medição feita no último dia 24 de julho. Na Inglaterra, James Bowen e Bob (o gato participa das turnês de lançamento) se preparam para publicar a continuação de suas aventuras no final deste ano. O novo livro, sem previsão de publicação no Brasil, se chama The World According to Bob (O mundo de acordo com Bob, em tradução livre).

Para alcançar esse status de celebridades literárias, Bob e James passaram por poucas e boas. O livro é um relato edificante da amizade dos dois e conta a forma como se conheceram, em circunstâncias adversas. James Bowen encontrou Bob machucado, dormindo no tapete de um dos andares do edifício onde morava. O detalhe é que o rapaz, na ocasião, não tinha condições nem de cuidar de si mesmo, muito menos de adotar um bicho de estimação. Diagnosticado na adolescência com Bipolaridade e TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade), James era um ex-morador de rua vivendo em um imóvel subvencionado pelo governo britânico e em tratamento contra a dependência em heroína.

Ao cuidar do gato machucado e após o animal se recusar a abandoná-lo, James iniciou uma jornada de recuperação da autoestima e da cidadania. No livro, o rapaz atribui a Bob o papel de “anjo da guarda” e afirma que o felino salvou-lhe a vida, dando-lhe a motivação de que precisava para manter-se no programa de reabilitação. Além disso, ajudou-o a passar pelo tratamento, que no caso do vício em heroína, é pontuado por riscos de recaída e episódios de fissura e paranoia.

A linguagem do livro, embora a história tenha momentos emocionantes, passa longe da pieguice. O que James faz, de maneira despretenciosa, é a crônica de uma amizade profunda e da cumplicidade nascida entre duas criaturas que se uniram no auge do desespero. Quem cria gatos saberá bem do que o autor fala quando atribui a Bob uma aura mítica e praticamente “poderes sobrenaturais”. Os gatos, embora o senso comum pregue o contrário, são animas solidários, principalmente nos momentos de maior dor ou tristeza.

O que levou James Bowen, um adolescente britânico comum que sonhava em ser guitarrista, às drogas foi desde problemas sérios de autoestima até questões familiares como a separação dos pais, a relação conflituosa com a mãe e o padrasto, e a instabilidade da vida doméstica. O gato tornou-se o porto seguro do autor e o guia em sua trajetória para tornar-se novamente humano e visível.

Sobre a invisibilidade da vida nas ruas, à mercê da violência, James escreve com propriedade, dando ao leitor uma ideia precisa do pesadelo da dependência e também do quanto aqueles que vivem abaixo da linha de pobreza tornam-se “não-pessoas”, passando despercebidas pelos transeuntes ocupados com suas vidas “normais” e pelo próprio governo, que em raros casos oferece chances reais de recuperação.

Mas, nem só de drama vive a história de James e Bob. O gato é carismático, inteligente e tem bastante energia. Várias cenas do cotidiano dos dois são divertidas. Em outras, o leitor fica apreensivo e torcendo para que esses “dois mosqueteiros” errando pelas ruas da capital inglesa encontrem um final feliz.

Sem apelar para o clichê, mas ao mesmo tempo enfatizando coisas simples da vida e até óbvias como a necessidade que todos os seres tem de amor e compreensão, o livro trata de segundas chances, mas sem apelar para a catequese da autoajuda. É otimista sem polianismo.

Tanto para quem ama gatos quanto para quem tem cisma com os bichanos, fruto de preconceitos medievais, o livro presta um serviço de informação, pois ajuda no entendimento da complexa e fascinante personalidade desses felinos e do quanto eles servem de metáfora para a compreensão do próprio comportamento humano.

A leitura de Um gato de rua chamado Bob também é bastante rápida e fluída. A prosa de James é simples, direta e amigável. Ao ser convidado para testemunhar a relação delicada entre um homem e seu gato, o leitor mais sensível terá aquela sensação reconfortante de tomar um bom chá da tarde com biscoitos.

Ficha Técnica:

Um gato de rua chamado Bob

Autor: James Bowen

Tradutor: Ronaldo Luís da Silva

Editora: Novo Conceito

240 páginas

Preço: R$ 24,90


Resenha: A livraria 24 horas do Mr. Penumbra

postado por Andreia Santana @ 11:02 AM
13 de julho de 2013

Entre livros raros, códigos secretos e bites

Ficção de estreia do americano Rob Sloan mistura bibliófilos e conhecimento high tech em trama divertida sobre amor, amizade e desejo pela imortalidade

Em uma entrevista, Bob Stein, presidente do Instituto para o Futuro do Livro, com sede nos Estados Unidos, profetizou o fim das livrarias como conhecemos estes espaços atualmente e a sua transformação em ambientes que antes de vender livros, precisam oferecer outros atrativos aos frequentadores habituados a ler em tablets e e-Readers.

Com essa mesma filosofia, a de uma livraria como centro de fomento intelectual, onde gravitam bibliófilos (amantes de livros) em pleno século XXI dos e-Books, o escritor Robin Sloan, conterrâneo de Stein, criou uma história cativante sobre o conflito entre o culto à leitura e a capacidade dos livros moldarem mentes críticas, e o imediatismo da cultura digital.

Robin Sloan

A livraria 24 horas do Mr. Penumbra (Editora Novo Conceito, 2013) usa amor e amizade, e a antítese entre tradição e modernidade, mas sem tomar partido entre uma coisa e outra, como pretexto para filosofar sobre uma das questões mais importantes da humanidade: o mistério da vida.

O autor pensou na história de Mr. Penumbra e seus exóticos amigos após conhecer o Clube Grolier, um reduto de colecionadores de livros raros, localizado em Nova York. Encantado por essa biblioteca e sua atmosfera de mistério, Robin Sloan concebeu um alter-ego, o designer desempregado Clay Jannon. Personagem não muito dado aos livros, Clay tem fascínio pela coleção fictícia As crônicas da balada do dragão, uma referência de Sloan ao boom das histórias de fantasia que conquistam a adesão de uma juventude pouco afeita à literatura, mas acostumada aos jogos de realidade virtual.

Clay Jannon tem menos de 30 anos e vive em São Francisco, na Califórnia, em um contexto atual de crise e forte recessão na economia norte-americana. Em busca de uma forma de pagar o aluguel, ele responde ao anúncio de uma livraria 24 horas que precisa de atendente. Mesmo sem entender nada de livros, já que o negócio dele é criar sites, o rapaz cai nas graças do excêntrico dono da livraria, um carismático octogenário chamado Mr. Penumbra.

Aldus Manutius, tipógrafo italiano que viveu na Idade Média, em Veneza

O turno do novo atendente é o da noite, das 22h às 6h, período em que ocasionalmente aparece um cliente notívago comum, como a bailarina do clube vizinho de streap que gosta de ler biografias de gênios como Einstein ou Steve Jobs. Esse horário em que “os gatos se tornam pardos” é também aquele preferido por um seleto grupo de frequentadores, todos entre a meia e a terceira idade, ansiosos, cheios de cochichos e segredos e muito interessados em uma coleção de obras encadernadas em couro e com cara de bem velhas, que ficam guardadas nos fundos da loja, no “Arquivo Pré-Histórico”.

Paralelo ao trabalho em um lugar com aparência tão retrô, Clay namora Kat Potente, hacker que é engenheira do Google, adepta de exercícios e comida saudável e que não se conforma com o pouco tempo de duração da vida humana. Ao escanear um dos livros antigos da livraria, Clay e Kat se deparam com uma trama que envolve códigos criptografados e uma sociedade secreta com origem na Idade Média e na tipografia de Aldus Manutius, personagem histórico real que viveu entre os séculos XV e XVI, em Veneza – Itália, nas origens da imprensa.

A referência bem humorada do autor às teorias da conspiração que bebem na fonte medieval fica ainda mais divertida quando ele envolve dois outros amigos, um artista que cria efeitos especiais para o cinema e que prefere usar sucata e cola ao invés de computação gráfica, e um ex-colega de escola, nerd, que se transformou em um rico empresário investindo em startups.

Liderados pelo incansável Mr. Penumbra, esse time tão inusitado quer desvendar o codex vitae (livro da vida) supostamente escrito por Manutius, acreditando que o segredo para a imortalidade está em suas páginas. Usando aparatos tecnológicos e invenções de fundo de quintal, o grupo enfrenta a oposição da tal sociedade secreta, que quer guardar o segredo da vida eterna longe de olhos comuns.

Com uma linguagem ágil típica dos nativos digitais, aliada a uma capacidade de amarrar as pontas da história com a habilidade de um griô (contador de histórias que ensina as lendas e costumes dos povos antigos às novas gerações), Robin Sloan se sai bem em promover um casamento aparentemente impossível entre a história das origens do livro e um futuro cada vez mais tecnológico.

A despeito das diferenças ideológicas entre bibliófilos tradicionais e adeptos das mídias e meios digitais, a mistura dá liga. O livro de estreia de Sloan foi disputado em leilão pelas principais editoras norte-americanas e publicado, na versão em papel, em 22 países. Obteve ainda destaque como um dos mais vendidos do San Francisco Chronicle e como o melhor livro de estreia na Amazon e no Programa Novos Escritores da Barnes and Nobles Discover.

Nada mal para um jovem escritor que já admitiu em público nunca ter sido um leitor lá muito assíduo de obras impressas.

Ficha Técnica:

A livraria 24 horas do Mr. Penumbra

Autor: Robin Sloan

Editora: Novo Conceito (www.editoranovoconceito.com.br)

288 páginas

Preço: R$ 29,90


Resenha: O espadachim de carvão

postado por Andreia Santana @ 8:53 AM
29 de junho de 2013

Mitologia de origem à brasileira

Blogueiro carioca cria história de fantasia inspirado na cultura nerd

Affonso Solano, da internet para as livrarias

O Brasil também é pródigo em literatura fantástica. Ao menos, provar que os autores do país conhecem os caminhos da fantasia, no melhor estilo da Terra Média, é a missão do carioca Affonso Solano. Famoso na internet, e no “mundo nerd”, pelo poadcast Matando Robôs Gigantes, ele estreia na literatura com O espadachim de carvão (Casa da Palavra, 2013), primeiro volume da série de aventuras de um jovem guerreiro descendente de deuses.

A tarefa de Affonso Solano, que também é ilustrador, storyboarder para a TV e colunista do blog TechTudo, não é tão árdua quanto os desafios que seu protagonista, Adapak, precisa enfrentar no hostil mundo de Kurgala. O autor integra uma nova geração de jovens escritores que, aos poucos e com a ajuda de milhares de fãs criados com games e sagas estrangeiras pontuadas de duelos mágicos, fundam uma tradição nacional no gênero fantasia.

A fonte primordial desses escritores, porém, nem sempre é genuinamente brasileira, como os mitos indígenas ou afrodescendentes, mas a cultura globalizada, disseminada pela internet, pelo cinema de Steven Spielberg ou pelos contos sobrenaturais de Stephen King. Integram esse time gente como o jornalista e autor best seller Eduardo Spohr, de A batalha do apocalipse (Verus, 2010). O livro já vendeu mais de 400 mil exemplares e trata sobre uma guerra de anjos.

O espadachim de carvão inaugura uma mitologia intrincada, inventada por Affonso Solano, e que envolve desde os mitos de origem da criação do mundo, até a interação de humanos com povos extra-terrestres e dotados de conhecimentos e tecnologia superiores. O autor confessa que sua inspiração vem de Tolkien – embora haja traços também de outro “pai da fantasia”, C. S. Lewis –, dos jogos de RPG, dos quadrinhos, dos mundos perdidos dos romances de Júlio Verne e da hábil narrativa cinematográfica.

A história acontece em Kurgala, um equivalente alternativo da Terra, no continente de Eriduria, um lugar abandonado pelos quatro deuses que conceberam todas as espécies que habitam o mundo. Esses deuses, por sua vez, desceram dos céus, em clara alusão a povos extra-terrestres, e uma vez que encontraram as duas forças criadoras de Kurgala, as aprisionaram e assim puderam gerar os habitats onde as espécies mortais viveriam e encenariam seus dramas. Qualquer semelhança com os mitos gregos, os irmãos olimpianos que derrotam os titãs, não é mera coincidência.

Adapak, o protagonista, é um jovem de pele cor de carvão e olhos brancos, filho de um desses quatro deuses de Kurgala. Ele foi criado longe do mundo, isolado em uma ilha esmeralda. Aprendeu um complexo sistema de luta com espadas e estudou profundamente, em livros antigos, a história do mundo e seus povos. Mas como não conhece a maldade, é ingênuo, uma vez fora da proteção da ilha precisa enfrentar o egoísmo, ganância e deslealdade de gente que tenta levar vantagem sobre ele e suas boas intenções.

Diante da realidade cruel, Adapak inicia a boa e velha jornada do guerreiro. Mas, ao contrário de outros heróis como o Hércules da antiga Grécia, ele não está em busca de redenção, mas de descobrir mais sobre si mesmo e sobre os misteriosos acontecimentos que levaram à destruição da ilha que era seu antigo lar. Por cada lugar onde passa e de cada criatura que conhece, ele absorve sabedoria e se torna menos inocente e mais adaptado ao mundo exterior, sem perder, no entanto, as características essenciais ao herói clássico: honestidade, honradez, determinação e compaixão.

Por ser a obra inaugural de uma série, O espadachim de carvão não traz todas as respostas da trama de uma só vez e é escrito de forma não linear, mostrando dois tempos simultâneos: as lembranças de Adapak da sua ilha e as fugas mirabolantes que empreende dos caçadores em seu encalço. O final, em aberto, dá indícios de que o guerreiro ainda será testado em situações futuras. E se depender dos fãs que vem conquistando em redes sociais, o espadachim e seu criador precisarão de fôlego para muitas aventuras, pois a geração habituada aos livros de Harry Potter (sete), Crônicas de Gelo e Fogo (até agora cinco) e outros do gênero tem sede insaciável.

Ficha Técnica:

O espadachim de carvão

Autor: Affonso Solano

Editora: Casa da Palavra / Grupo Leya (www.casadapalavra.com.br)

256 páginas

Preço: R$ 34,90


Resenha: O menino que via demônios

postado por Andreia Santana @ 7:41 AM
22 de junho de 2013

O pai de todos os males

Escritora irlandesa se inspira em clássico de C. S. Lewis para falar de demônios, esquizofrenia e traumas de infância

Não se engane com a capinha lúdica. Essa não é uma obra infanto-juvenil. O livro faz referências a suicídio, automutilação, possessão demoníaca, depressão e loucura

Em 1942, no auge da II Guerra, C. S. Lewis (As crônicas de Nárnia) escreveu um livro soturno e irônico sobre a condição humana, em homenagem ao velho amigo J.R.R. Tolkien (O Senhor dos Anéis). Cartas de um diabo a seu aprendiz conta a história do diabo Fitafuso, que escreve missivas ao sobrinho Vermebile para orientá-lo sobre os melhores truques para desencaminhar as almas humanas.

Inspirada no clássico de C. S. Lewis, a irlandesa Carolyn Jess-Cooke pensou em criar um roteiro de cinema, mas concebeu O menino que via demônios, unindo a ideia de um diabo que faz de tudo para tentar um garoto de boa índole, com o drama da esquizofrenia precoce.

O cenário da história é a cidade de Belfast, capital da Irlanda do Norte. E o contexto, os dramas familiares nascidos na esteira dos conflitos políticos e religiosos – e os consequentes ataques terroristas -, no país, nas últimas décadas do século XX. Dramas que permanecem pintados nos muros da cidade, como lembrete. Alex, o protagonista, tem dez anos, é precocemente amadurecido e vive em um lar instável. Responsável por tomar conta da mãe, em depressão desde que o pai, integrante de um grupo terrorista, desapareceu; usa a imaginação como válvula de escape da violência.

Alex é bom desenhista, gosta de atuar, e tem muito afeto pela mãe depressiva e por um cão de estimação. Mas carrega segredos e dores acumuladas em uma vida de privação material e solidão. A psiquiatra infantil Anya Molokova, que possui um histórico familiar de loucura, é designada para avaliar o menino e está convencida de que ele sofre de esquizofrenia. Alex diz que seu melhor amigo é o demônio Ruen, de mais de nove mil anos, e que tem a missão de estudar e tentar os humanos.

O menino participa de um grupo de teatro que fará uma montagem moderna de Hamlet, de William Shakespeare. Outras crianças com famílias desajustadas e que vivem da assistência do governo integram o elenco. Ao longo dos ensaios, quanto mais se envolve com a história do príncipe dinamarquês em busca de vingança para apaziguar a alma do pai assassinado, mais coisas estranhas ocorrem ao redor de Alex.

O grande trunfo do livro é a dualidade entre realidade e fantasia, lucidez e loucura, mas sem maniqueísmos, fórmulas definidas ou soluções óbvias. A narrativa é rica em metáforas inteligentes, envolta em atmosfera aterrorizante e ao mesmo tempo dramática. Anya e Alex se revezam para contar a história a partir de seus diários pessoais.

O pragmatismo da psiquiatra não é destituído de humanidade. Por mais que tente, Anya não consegue o distanciamento profissional do caso. Já Alex, embora tenha momentos de grande credulidade, não deixa de ter autocrítica e questionar o mundo e as atitudes tanto dos adultos quanto de Ruen, que faz às vezes de alter-ego ou do lado obscuro do menino.

O leitor nunca tem certeza se Alex possui mesmo um demônio de estimação ou se precisa de ajuda médica. O personagem equilibra-se em linha tênue prestes a se romper e vive em meio a adultos que ao invés de dar-lhe suporte, projetam nele as próprias fragilidades.

Descobrir se Ruen é ou não fruto da imaginação de Alex é o de menos e cada leitor tirará suas conclusões. Uma coisa no entanto, é consenso, o roteiro que virou romance daria um bom filme de suspense.

Ficha Técnica:

O menino que via demônios

Autora: Carolyn Jess-Cooke

Tradução: Geni Hirata

Editora: Rocco

384 páginas

Preço: 49,50


Resenha: Xing Ling – made in China

postado por Andreia Santana @ 8:01 AM
6 de abril de 2013

Revolta baiana made in China

Victor Mascarenhas critica a decadência de Salvador e o mito da baianidade para turista ver em romance com forte sotaque gregoriano

Victor Mascarenhas é também roteirista

As citações a Antonio Risério, em crítica do antropólogo à obrigação do soteropolitano ser feliz os 365 dias do ano e à carta de demissão do governador-geral e fundador de Salvador, Tomé de Souza, que, de forma comovente, implorou a D. João III para dispensá-lo do pesado cargo, sinalizam o que o leitor irá encontrar nas breves 80 páginas de Xing Ling – Made in China, primeiro romance do escritor e roteirista Victor Mascarenhas, lançamento da Solisluna Editora.

Seja no ritmo caudaloso das palavras ou no tom revoltado e panfletário, de nítida conotação política, embora apartidária, o livro remete aos versos de escárnio do poeta colonial Gregório de Mattos, mas sem deixar de recordar o deboche do velho Cuíca de Santo Amaro, que, quando encarapitado em caixotes de feira, disparava farpas contra os poderosos da “Cidade da Bahia” em inspirados cordéis.

Xing Ling é anárquico até no nome, que faz referência às quinquilharias tecnológicas pirateadas pelos chineses. Mas, nem por isso, deixa de expor as feridas de uma Salvador em vias de desintegração. O livro, embora entretenha com seu tom escrachado e a narrativa mirabolante de filme de aventura, tem um objetivo mais sério: abrir consciências, tanto quanto a droga sintética Eparrey!, arma utilizada por um grupo de guerrilheiros esfarrapados no combate ao sistema – aqui representado pela grande indústria do entretenimento baiano – que envolve e espreme a cidade idealizada pelos portugueses para representar o poder da Coroa no Atlântico, tal qual os tentáculos de um polvo gigante.

Em resumo, a obra se passa em um futuro hipotético, quando o Pelourinho – patrimônio arquitetônico e cultural da humanidade pela Unesco – é transformado por um conglomerado empresarial chinês, numa espécie de Costa do Sauípe Intramuros do Dendê. O Centro Histórico, núcleo original da fundação de Salvador, é metaforizado no coração da capital, logo, em uma espécie de centro de força gravitacional de seu povo.

O “Pelô” de Xing Ling está cercado por muralhas e fossos eletrificados que mantêm a população nativa afastada, enquanto turistas estrangeiros e endinheirados abrem as bocas entediadas diante das suntuosas igrejas barrocas. Arte sacra, baianas, capoeiristas e toda a sorte de personagens míticas daquele cenário medieval, que embasbacavam cronistas e viajantes estrangeiros, como Maria Graham e Maximiliano da Áustria em tempos idos, e que inspiraram Jorge Amado, agora não passam de imitações em plástico ou atores contratados e controlados por chips para divertir os “gringos”.

Do lado de fora dos muros, um grupo de nativos se organiza e, usando a Eparrey! como o comprimido vermelho de Matrix (a referência à saudação a Iansã e à transcendência do Candomblé não são meras coincidências), tentam retomar o coração de Salvador e devolvê-lo ao seu povo, instaurando uma guerra civil para resgatar a identidade legítima dos baianos e abolir as distorções de uma baianidade fake.

Não faltam ironias disparadas contra os partidos de esquerda ou direita que se sucedem no poder e rateiam a cidade ora para um grupo empresarial, ora para outro. E, tampouco, o livro deixa de tocar nos males advindos da pasteurização da cultura baiana e sua reembalagem tipo exportação. Sobram tiros de Eparrey! para a axé music e seus ritmos derivados e para o fundamentalismo religioso que ameaça liberdades civis. Não deixa de haver, ainda, a crítica amargurada contra os próprios soteropolitanos, que, passivos e anestesiados (como a população descrita em Admirável Mundo Novo e suas doses de Soma) pela promessa de “eterno Carnaval”, assistem a transformação da cidade em um monstrengo de aço, vidro, engarrafamentos caóticos e injustiça social.

Xing Ling, com seu desfecho surpreendente e em aberto, é um desabafo pessoal de seu autor, mas que pretende representar os anseios coletivos de uma população que perdeu a si mesma nos exotismos da própria cultura.

Quem é – Victor Mascarenhas é escritor e roteirista. Já publicou dois livros, Cafeína, de contos e vencedor do Prêmio Braskem de Cultura e Arte de 2008, e A insuportável família feliz, em 2011, após ser um dos finalistas do Prêmio Off Flip, que ocorre em paralelo à Festa Literária Internacional de Paraty. No cinema, foi um dos roteiristas de Esses Moços (2010, José Araripe Jr.).

Ficha Técnica:

Xing Ling – Made in China

Autor: Victor Mascarenhas

Solisluna Editora

80 páginas

R$ 29,90

Serviço:

O quê – Lançamento do livro Xing Ling – Made in China

Quando – Terça-feira, 9 de abril, às 19h

Onde – Livraria Cultura do Salvador Shopping

Quando – Entrada gratuita. Livro vendido no local por R$ 29,90


Ranking literário para todos os gostos

postado por Andreia Santana @ 9:41 AM
29 de março de 2013

Top 100 da Skoob elenca os 100 livros mais lidos por usuários da rede

Navegando pela rede social de bibliófilos (colecionadores ou amantes de livros) Skoob, me encantei com a diversidade de leitores que há neste mundo. A rede mantém um top 100, com a lista dos 100 livros mais lidos pelos seus integrantes. E nesse ranking tem de tudo, de infanto-juvenis aos clássicos nacionais e mundiais, passando por romances, auto-ajuda, aventura, ficção científica e a nova mania mundial, o soft porn (pornô leve) como Cinquenta tons de cinza.

Entre as obras listadas estão sagas como Harry Potter, O Senhor dos Anéis, Percy Jackson e os olimpianos, Crepúsculo, Diários do Vampiro, Fallen e As crônicas de gelo e fogo (Guerra dos Tronos e cia), clássicos estrangeiros como O pequeno príncipe, As crônicas de Nárnia, Alice no país das maravilhas, O retrato de Dorian GrayOrgulho e preconceito e 1984; clássicos nacionais como A moreninha e Memórias de um sargento de milícias, romances como Querido John, chic lits como Melancia e mais obras de Paulo Coelho, James C. Hunter e Augusto Cury.

Dia desses, li um artigo assinado por  Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras, uma das editoras mais importantes do país, em que ele falava das mudanças no mercado editorial a partir do advento das novas tecnologias (e-readers, tablets e etc), que modificam a forma de se consumir literatura, ou ao menos oferece esse consumo em novas plataformas.

No texto, Schwarcz também falava daqueles que torcem o nariz para os leitores que são mais afeitos a consumir blockbusters literários e obras consideradas pelos “intelectuais” como uma “leitura menor”. Ele lamentava o preconceito, da mesma forma que eu lamento, embora, lógico, tenha meu próprio gosto literário e me paute por ele na hora de escolher o que ler.

Ninguém é obrigado a ler tudo o que é lançado, de todos os estilos e gêneros, e não há vida que chegue para ler todos os livros do mundo, o que é uma pena, mas é a realidade. Por isso, selecionamos aquilo que mais nos agrada, por um motivo ou outro, e cada leitor vai montando a sua estante (virtual ou real) de acordo com critérios totalmente subjetivos.

O importante nessas escolhas é não desmerecer os livros lidos por outras pessoas, mesmo que eles não façam o seu estilo, e muito menos deixar de permitir-se experimentar novas possibilidades. O soft porn e as obras de autoajuda por exemplo, não são dos gêneros que curto, mas já o chic lit, adoro!

Ler chic lit, no entanto, não me impede de gostar de sagas sangrentas como As crônicas de gelo e fogo ou pops como The walking dead. Ou, ainda, o fato de pesquisar muito e admirar a obra de Tolkien e toda a mitologia que daí deriva, não me impede de perceber as qualidades literárias de um autor como George R.R.Martin, que bebe na mesma fonte, ou mesmo perceber a importância que Harry Potter teve na formação de toda uma geração de novos leitores.

O ranking totalmente democrático e misturado da rede Skoob, feito de forma aleatória, a partir da marcação que cada membro da rede fez dos seus livros lidos e “favoritados” é só um pedacinho do grande mosaico de gostos e opiniões que compõe o mundo e que o torna um lugar tão interessante para se viver.  Se todos fôssemos iguais, imaginem o tédio que seria a existência. E mosaicos, quanto mais coloridos e multiformas, mais bonitos são!

Fico por aqui, com essas reflexões típicas de feriadão, e já em busca de uma nova leitura. E vocês, o que estão lendo? Já separaram um livro para fazer companhia enquanto mordiscam os ovos de Páscoa?


Uma ode à sinceridade infantil e a liberdade de expressão

postado por Andreia Santana @ 3:43 PM
4 de junho de 2012

Gianninno, apelidado Gian Burrasca (tempestade) por ser considerado muito travesso, é apenas uma criança típica, mas extremamente inteligente e precoce; capaz de surpreender os adultos em suas contradições. “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço” não é uma máxima convincente para o pequeno Gian. Nas páginas de seu diário, ele questiona as injustiças cometidas por pais muito severos com seus filhos, mas que são pessoas moralmente frágeis a ponto de colocar em xeque a credibilidade da criação dos pequenos.

Os relatos de O diário de Gian Burrasca, do humorista italiano Vamba (que nasceu Luigi Bertelli), são de um tempo em que castigos corporais e palavras duras, desqualificantes, faziam parte da criação dos filhos. Um tempo em que os pais não conquistavam o respeito pela coerência de suas ações e palavras, mas apenas por incutir temor nas crianças. O livro, no entanto, é mais que isso. Através do personagem Gian Burrasca, Vamba mostra a hipocrisia da sociedade italiana do começo do século XX (a obra é de 1906/1907) e embora pareça antiga, a história é atemporal. A crítica social, política e de costumes contida no diário vale tanto para a Itália quanto para qualquer outro país nos dias de hoje.

Gianninno, na tentativa de ser um filho modelo e comportado, coloca em prática os ensinamentos teóricos que recebe da família, mas sempre esbarra na prática contrária. Se os parentes mandam que ele respeite os mais velhos, por exemplo, agem de forma diferente das próprias palavras, colocando apelidos maldosos nos tios ricos e vivendo na expectativa de que estes morram para legar-lhes uma gorda herança.

Na cabeça do menino, a contradição, justificada pelos adultos como parte do “jogo social”, provoca revolta e insurreição. Giannino, sentindo-se injustiçado por fazer o que dizem ser certo, mas ser repreendido devido à maleabilidade da moral e ética adulta, se revolta e acaba levando outras crianças para a sua “revolução”.

Na Itália, O diário de Gian Burrasca é considerado um clássico e já foi levado aos palcos em forma de musical

O problema é que só o leitor percebe as jogadas de Gian para revelar aos adultos as próprias falsidades. Imersos no lodo da sociedade, os mais velhos estão cegos e surdos a qualquer tentativa do garoto de dar-lhes uma lição. De certa forma, a mensagem de Vamba parece dizer que em meio à forte pressão do grupo para a manutenção das coisas como estão, as vozes dissidentes serão sempre consideradas rebeldes e marginais, mesmo que estejam certas.

O menino, depois de desventuras e aventuras e de ser levado daqui para ali, para a casa de parentes que tentam “corrigi-lo”, é mandado para o colégio interno como um último recurso de uma família que não pretende assumir a responsabilidade pela sua formação, revendo inclusive os próprios erros (a ideia dos adultos é de que eles não erram); mas apenas ditar-lhe normas de comportamento que quando ele for adulto poderá quebrar ou remodelar ao sabor das circunstâncias, mantendo sempre a “ordem natural das coisas”.

No colégio, Gian descobre que as mesmas injustiças domésticas existem em grau máximo e passa a fazer parte de uma sociedade secreta que tem por finalidade revelar os maus-tratos sofridos pelos alunos e também punir os diretores que não só praticam as barbaridades, como são coniventes com a perversidade de outros funcionários.

Sem voz em uma sociedade que não dá a menor credibilidade às crianças, o menino e seus companheiros passam a usar táticas de guerrilha para sobreviver em meio a uma ditadura de costumes imposta por pais, professores e qualquer outro adulto.

À primeira vista, O diário de Gian Burrasca, pode parecer só uma saudosa coletânea de traquinagens infantis. Mas através das memórias de seu protagonista, o autor homenageia não somente a infância livre e criativa dos tempos de outrora, mas acima de tudo, a capacidade das crianças de serem sinceras e dizerem sempre as “verdades inconvenientes”. Faz ainda uma bela apologia à liberdade de expressão em uma sociedade que pratica a patrulha ideológica e a repressão dos talentos individuais, em qualquer tempo.

Ficha Técnica:

O diário de Gian Burrasca

Autor: Vamba (Luigi Bertelli)

Tradução: Reginaldo Francisco

Editora Autêntica

248 páginas

Preço: R$ 34,00


Resenha: uma história de amor com gosto de infância

postado por Andreia Santana @ 12:29 PM
27 de maio de 2012

Quem já leu Luna Clara e Apolo 11, de Adriana Falcão, vai se identificar de imediato com Mil coisas podem acontecer, de Jacobo Fernández Serrano, que no Brasil ganhou edição da Autêntica. A narrativa segue a mesma receita de unir uma bela história de amor, com generosas doses de humor, ludicidade, aventura, suspense e pitadas de absurdo, só para deixar a receita mais saborosa.

Ricamente ilustrado por seu autor, que é também artista gráfico, Mil coisas podem acontecer é aquele tipo de livro de leitura rápida, de um só fôlego, dos tais que não conseguimos largar até concluir e que dá vontade de reler outra vez e mais outra. Ou então, depois de decorada a história, apenas folhear, viajando no cineminha mudo das gravuras.

A história singela fica na memória e o colorido dos desenhos só ajuda a fixar mais na lembrança os carismáticos personagens. Não tem como terminar a leitura e não simpatizar com o rio Inrique; ou com os personagens do “mundo dentro do mar”. Ou ainda com Propicius e sua mania de limpeza.

Dos protagonistas então, nem se fala, Lina e Pouco merecem um fã-clube. Do começo ao final da saga dos dois amantes para finalmente ficarem juntos, sem que guerras sem sentido ou nuvens de água salgada os afastem, o leitor se emociona, vibra, ri, quase chora de frustração e avança, página por página, até… (se eu contar perde a graça!)

Em resumo, o livro começa com dois fatos importantes: na vila de Nil, os moradores festejam o fim da guerra do Leito Seco, iniciada porque um belo dia o rio Inrique desapareceu do seu leito, deixando os moradores desconfiados dos vizinhos. Enquanto isso, no fundo do mar, os filhos do rei Pindo IV tentam encontrar o presente ideal de aniversário para o pai e decidem viajar à superfície. Quando os mundos de fora e de dentro do mar se encontram, literamente, “mil coisas podes acontecer”, numa sucessão de fatos que brinca com a ideia das reações em cadeia.

O livro passa uma mensagem muito positiva do tipo “nunca é tarde para mudar a trajetória da própria vida”. Que o digam os moradores da simpática vila de Nil, que aproveitam a sucessão dos fatos e vão alterando suas posições na trama, de forma aparentemente nonsense, mas que carrega aquela lógica inerente aos que não tem medo de experimentar o novo.

Outra mensagem muito bacana para os pequenos, e os crescidos também, é a persistência. Pouco, que era soldado, aplica-se aos estudos de música até aprender a tocar uma tuba e assim virar músico da banda municipal; Propicius, que recebe o cargo de coveiro e servente do cemitério da vila, obstina-se em fazer da necrópole um jardim florido; Lina inicia uma busca insistente e incansável por reencontrar seu amado raptado por uma nuvem. Cada personagem da obra nos mostra o valor de lutar por aquilo que acreditamos. É muito lindo!

Importante também ressaltar o cuidado da edição em português. Tanto no que diz respeito à tradução e revisão final do texto, quanto na preservação das ilustrações originais e da própria forma como o autor encadeou a história. O livro é ainda um deleite visual.

Mil coisas podem acontecer promete uma continuação. A história tem um final aberto para muitos dos personagens e o leitor já fica se torcendo de ansiedade pelo próximo volume dessa divertida saga dos nilenses. Que os deuses da criatividade favoreçam o autor e em breve venha mais aventura por aí!

Ficha Técnica:

Mil coisas podem acontecer

Autor e ilustrador: Jacobo Fernández Serrano

Tradução: Luiz Reyes Gil

Editora Autêntica

216 páginas

Preço sugerido: R$ 39,00


Resenha: A fala de uma criança pela voz de um adulto

postado por Andreia Santana @ 1:02 PM
23 de maio de 2012

O italiano Edmondo de Amicis bem que tenta fazer o leitor acreditar que quem narra Cuore é um menino de nove anos, mas é a sua voz de um homem feito e cheio de boas intenções, mas marcado pelos preconceitos de seu tempo, que é ouvida. Escrito em forma de diário, onde um garoto italiano de meados do século XIX narra o dia a dia em uma escola pública onde estudam filhos de pobres e ricos, o livro é considerado um clássico, mas não é dos tais que podem ser lidos a qualquer tempo como se falasse dos dias de hoje. Cuore é datado e sua leitura se justifica mais como curiosidade antropológica.

O tom lacrimoso da obra e a defesa ferrenha de um patriotismo até certo ponto cego comprometem a fruição do livro por um leitor contemporâneo e mais crítico, embora a edição em português (da Autêntica) prime pelo criterioso trabalho de contextualização através de uma boa introdução da editora e de notas de rodapé. Ainda assim, boa parte dos conselhos de Amicis, como bem definiu um dos personagens de Umberto Eco – Gragnola, do livro A misteriosa chama da rainha Loana, soa fascistas.

Há no livro um excesso de caridade cristã, um engrandecimento da pátria e da figura dos governantes (no caso da obra, do rei), uma exortação à moral e aos bons costumes que flertam perigosamente com ideais totalitários. É compreensível que na Itália recém-unificada do período, as obras infantis buscassem inspirar nos pequenos leitores a ideia de nação, respeito e união entre as diversas províncias, de culturas e dialetos diversos, que formavam o país. Mas ainda assim, há nas entrelinhas de Cuore um certo fanatismo.

A forma como os pais do protagonista lidam com ele também é impensável nos dias de hoje, visto que os métodos de educação, ao menos teoricamente, evoluíram da velha chantagem emocional com objetivo de deixar o outro culpado (“assim você mata a sua mãe de desgosto”) para uma tentativa de se estabelecer um diálogo e uma compreensão melhor entre pais e filhos. Mas Cuore é um livro que divide as crianças em anjos e casos perdidos. Sendo que os últimos são tratados sem a menor condescendência ou sequer uma tentativa de reabilitação.

A fala de Enrico, o personagem central e narrador do diário, é enfadonha, artificial e adultizada em excesso, o que se justifica pela própria semi-existência de um conceito de infância na época em que a obra foi escrita. Amicis não parece compreender as crianças e o universo infantil, daí não ser capaz de falar como uma delas.

Em resumo, Enrico é um garoto bem-nascido, filho de um engenheiro rico, e dotado daquela superioridade que se traveste de piedade para com os desafortunados. Piedade essa que estende uma moeda ou um pão ao faminto, mas que não encoraja mudanças no status social, por exemplo.

Os amigos pobres de Enrico são sempre tratados como coitados e a qualquer grosseria feita pelo menino para um deles, num caso típico da idade e das rixas infantis, é punida pelo pai do garoto com um sermão pio que segue caminhos tortuosos. Enrico, diz seu pai, precisa manter sua posição de superioridade, servindo aos amiguinhos pobres como inspiração em termos de cavalheirismo, embora por sua condição de nascimento eles nunca cheguem de fato a cavalheiros.

As intervenções desse pai de fina estirpe no diário do filho, através de longas cartas e inserções no caderno onde o menino registra seu cotidiano escolar e desabafa suas incertezas, mostram a preocupação de um pai em ensinar ao filho como demarcar seu status social desde muito cedo, mas a fazer isso de forma gentil, piedosa e até certo ponto hipócrita. O mundo é dividido entre nós, os bem-nascidos, e eles, os necessitados. E só.

No meio dos dois grupos, demarcando a fronteira, um engrandecimento e louvação excessiva ao exército e à figura do soldado como guardião do status quo da sociedade. Fascista, com certeza. E embora o fascismo ainda não existisse nos tempo de Amicis, de algum lugar  – ou de vários lugares – os criadores do partido tiraram os fundamentos de sua ideologia.

O incentivo ao respeito ao outro, que poderia ser o grande discurso do livro, apenas se insinua, mas sempre com a mancha da divisão da sociedade por classes, o que no fim das contas compromete tanto a leitura quanto a moral da história.

De certa forma, Cuore é um incentivo não à compreensão, mas á tolerância e como bem disse José Saramago certa vez, o ato de tolerar o outro nunca pode ser confundido com o ato de compreender.

Quando se compreende é porque houve a capacidade de ver o mundo e senti-lo na carne do outro; mas quando se tolera, apenas se reforça uma tendência à magnanimidade: “vá lá que eu sou tolerante com você, porque sou superior”.

Uma mensagem nada edificante, não acham?

Ficha Técnica

Cuore

Autor: Edmondo de Amicis

Tradução: Maria Valéria Rezende

Ilustrações: Daniel Hazan

272 páginas

R$ 39,90