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Estranha Presença: Terror à moda Hitchcock

postado por Andreia Santana @ 4:34 PM
23 de maio de 2011

Sarah Waters propõe uma guerra de nervos com o leitor, nos moldes de obras como o primoroso Psicose, de Alfred Hitchcock

Ler o romance Estranha Presença me lembrou o filme O orfanato, de Juan Antonio Bayona, estrelado por Belén Rueda. A obra, tal qual a produção cinematográfica, se passa em uma casa antiga, decadente, claustrofóbica apesar do tamanho, cheia de quartos escuros e mistérios do passado. A semelhança do livro de Sarah Waters com o filme não fica por aí. Trata-se do mesmo tipo de atmosfera assustadora que une o sobrenatural das típicas histórias de fantasma e o psicológico. Tem uma nuance de Psicose, de Alfred Hitchcock. Nas mãos do mestre, Estranha Presença se tornaria tão primoroso quanto a saga de Norman Bates.

Há um mal interno que alimenta forças sinistras exteriores que, uma vez liberadas, agirão até as últimas conseqüências. O tom fatalista acompanha o romance desde o primeiro capítulo e em certos momentos, torna a leitura angustiante.

O livro conta a história de uma família de aristocratas ingleses falida após a II Guerra Mundial e vivendo em uma antiga mansão rural arruinada. O pano de fundo é a morte de um modo de vida e o surgimento de outro. Parte das terras da antiga fazenda foi desapropriada para que o governo construa loteamentos de casas para uma nova classe média emergente. A família Ayres, enquanto ressente-se da glória perdida e teme a aproximação da “ralé”, afunda em dívidas e dramas psicológicos que desenterram medos profundos e antigos. A loucura ronda.

A história é contada pelo amigo dos Ayres, um comedido, pacato, porém ambicioso, médico que encarna o protótipo do homem metódico e fleumático britânico, chamado Faraday. Vindo dessa mesma ralé rejeitada pelos aristocratas, ao longo da trama, ele ganha a confiança da família por sua aparente solidez moral e mental. A proximidade com a atormentada família, porém, envolve-o nos acontecimentos sobrenaturais que tem como cenário a sinistra mansão de Hundreds Hall.

A narrativa hábil de Sara Waters propõe o bom e velho jogo de espelhos. Nem tudo é o que parece ser e as conclusões mais apressadas do leitor acabam frustradas pela habilidosa e intrincada trama da autora. Para quem gosta de ser surpreendido,  as expectativas são prontamente atendidas. Além disso, ela propõe um romance entre Faraday e a herdeira da mansão, Caroline Ayres, pontuado por preconceitos de classe, expectativas e desejos de uma fuga da realidade ansiada pelos dois. O leitor tem uma intuição do que poderá resultar de semelhante enlace, mas a autora ilude a percepção até dos mais argutos.

A trama contada por um observador também envolvido na história, não deixa de trazer aquelas questões de sempre sobre o quanto da nossa visão de leitor está contaminada pelo olhar de um único personagem. A dica é ler as entrelinhas, ter em mente a sequência cronológica dos fatos e se ater aos “atos falhos” da narrativa de Faraday. Pelo desafio à sagacidade do leitor, o texto lembra Conan Doyle e Agatha Christie, não à toa dois autores britânicos – assim como também é o cineasta Alfred Hitchcock – de literatura de mistério que precederam Sarah Waters e lançaram bases sólidas para este tipo de entretenimento que não se pretende elaboradíssimo ou erudito, mas é intenso dentro da sua proposta.

Ficha Técnica:
Estranha Presença

Autora: Sarah Waters

Tradução: Ana Luiza Dantas Borges

Editora Record

4480 páginas / Preço: 57,90


Resenha: A menina que não sabia ler (John Harding)

postado por Andreia Santana @ 6:40 PM
11 de abril de 2011

Um grande gole na fonte do bom e velho Poe

Finais em aberto ou desfechos inesperados não costumam cair no gosto do leitor médio. Mas as opiniões contrárias ao livro A menina que não sabia ler partem de um mal entendido da tradução em português, que por um equívoco na titulação, associa essa obra de John Harding ao magistral A menina que roubava livros (Marcus Zusak). No entanto, o erro não é do autor de Florence and Giles, o título original de A menina que não sabia ler. Conhecendo esse título, é bem mais fácil compreender as intenções do autor.

Primeiro, é importante ressaltar que o livro de Harding não tem a menor semelhança com a história comovente de Liesel Meminger, personagem principal de A menina que roubava livros. Portanto, quem vai ler um pensando no outro, limpe a mente a abra-a para uma experiência diferente. A única coincidência entre um e outro é que as duas obras falam do fascínio da leitura, mas por caminhos próprios. Enquanto Zusak ambienta sua obra na Alemanha nazista, por exemplo, John Harding escolhe a Nova Inglaterra (Virgínia) do final do século XIX para tecer a aura de mistério que envolve sua trama.

No entanto, Florence, a personagem principal de Harding, lembra sim uma outra protagonista da literatura. A mim, ao menos, parece tão dissimuladamente cativante quanto a Fany de Jane Austen (Mansfield Park). E não é só uma justa homenagem ao lado obscuro e subentendido de Fany que o autor de A menina que não sabia ler faz nesta obra. Usando os clichês da literatura de suspense de forma bastante inteligente, ele rende uma justa homenagem a atmosfera sombria e lúgubre das obras de Edgar Allan Poe.

Mansão decrépita do filme The Changeling (1981), poderia ser o cenário perfeito para A menina que não sabia ler

Muita gente tem dito que o livro bebe na fonte de A volta do parafuso. Mas, honestamente, há apenas um perfume de Henry James, algo bem sutil, que paira no ar e nos recônditos da velha mansão decadente que serve de cenário ao drama de Florence e de seu irmãozinho Giles.

A menina que não sabia ler é Edgar Allan Poe até a medula. Não à toa, Florence é fã do escritor. A descrença na humanidade presente nas obras de Poe, além de seus personagens atormentados, a loucura e o que se esconde na escuridão, seja de um quarto ou da mente de uma criança abandonada à própria sorte, são o pano de fundo dessa narrativa que no fundo fala mesmo é da solidão, da indiferença dos adultos e do quanto um amor incondicional, como o de uma irmã mais velha pelo irmãozinho, podem ser uma combinação perigosa se não existe um ponto de equilíbrio.

Os livros, alimento para a imaginação, ao invés de consolar como no caso de Liesel Meminger, em A menina que não sabia ler servem apenas de combustível para queimar ressentimentos adormecidos desde a mais tenra infância.

Além de me lembrar Fany, com sua doçura calculada e por vezes cínica, Florence também me lembra Bentinho, personagem de Don Casmurro (obra ícone de Machado de Assis). Isso porque, narrado em primeira pessoa, pela própria Florence, o livro só nos mostra uma perspectiva das coisas, e sempre sob o ponto de vista imaginativo dela. Se em Dom Casmurro somos levados a desconfiar de Capitu graças aos ciúmes e as distorções de percepção que o sentimento provoca no olhar de Bentinho; em A menina que não sabia ler, embarcamos, até certo ponto, nos devaneios solitários de Florence, atiçados pelos livros que leu e pela negligência de quem deveria cuidar dela. Vemos a mansão, Giles e principalmente os adultos, sob o foco da menina.

O golpe de mestre de John Harding é levar o leitor em banho-maria, fazendo-o acreditar que está diante de uma coisa, de um “conto sobre a doce órfã Anne”. Mas pouco a pouco, a cortina é descerrada, provocando incredulidade e até repulsa. Essa transição porém, não é feita de maneira improvisada. Os indícios, para o bom entendedor, estão visíveis ao longo do livro. Como um hábil artífice, ele constrói sua trama fio a fio e enreda o leitor, tornando-o um cúmplice involuntário. E aqui, nesse joguinho hábil de mostra e esconde, ele lembra a dama Agatha Christie.

Vale ainda ressaltar que, embora com tantas citações a gêneros e autores célebres, A menina que não sabia ler tem ritmo e encanto próprios. Não é imitação, mas reverência aos mestres. Por ser ambientado no século XIX e narrado por uma personagem desta época, o livro tem ainda uma linguagem que em certos momentos parece revestida do pó solene do tempo. O que para mim ao menos, é um molho a mais.

Ficha Técnica:

A menina que não sabia ler (Florence and Giles)

Autor: John Harding

Editora: Leya

288 páginas

R$ 39,90


Resenha: A vida secreta de uma mãe caótica

postado por Andreia Santana @ 1:20 PM
11 de dezembro de 2010

Mães à beira de um ataque de nervos
Romance de Fiona Neill acerta na mistura de comédia romântica com os dilemas da maternidade

“A culpa é a planta trepadeira da maternidade. As duas são tão inexoravelmente interligadas que é difícil saber onde termina uma e começa a outra”.

Quem pensa que mãe e sedução são palavras incompatíveis no dicionário é bom rever os conceitos. A maternidade contemporânea vista sob a perspectiva da escritora britânica Fiona Neill abre espaço para a sexualidade e o desejo em meio a fraldas e mamadeiras. Inspirada em uma coluna que mantém no jornal The Times, na Inglaterra, a autora une em A vida secreta de uma mãe caótica – Ed. Record – elementos de comédia romântica e reflexões sobre o ser mãe x o ser mulher nos tempos modernos. E nos apresenta Lucy, uma divertida anti-heroína que tenta dar conta do marido, três filhos, tarefas domésticas, vida social, dramas familiares e ainda arranja tempo para cair em tentação e se apaixonar por um pai da escola das crianças.

Lucy não é perfeita como mocinha de novela. É confusa, carente, culpada, fuma feito uma chaminé, se acha quilos acima do peso e consegue pagar tantos micos quanto a conterrânea Bridget Jones. Com a diferença de uma ser dona de casa – mãe em tempo integral no linguajar “político-corretês” – e a outra uma profissional liberal, as duas personagens muito se assemelham. Essa familiaridade da história de Fiona Neill com a rainha das anti-heroínas criada por Helen Fielding nos idos da década de 90 e responsável pelo boom do Chick Lit (literatura feminina moderna), dá um grande conforto ao leitor. É como pisar em caminho conhecido, mas não necessariamente igual.

Cena do filme "Uma mãe em apuros"

Fiona Neill tem suas cartas na manga para não ficar à sombra de uma mera imitação. Lucy é inspirada em dezenas de mães que escrevem semanalmente para a coluna de conselho doméstico e sentimental que a autora mantém no jornal de maior prestigio da Inglaterra. A protagonista é um pouco autobiográfica também. Fiona Neill tem três filhos e conhece bem os sentimentos conflitantes das mães atuais, eternamente divididas entre dar tudo de si na educação das crianças e não perder espaço no competitivo mercado de trabalho. Além, claro, de arranjar tempo para aparecer sempre linda, cheirosa e depilada para o maridão. É esse avatar de super mulher bem resolvida e capaz de dar conta de multitarefas que as capas das revistas vendem, mas a realidade, nos mostra a escritora, está anos luz de distância. Os terapeutas que o digam…

Psicologia com humor - Em comum com O diário de Bridget Jones – e não tem como ser diferente porque Helen Fielding fez escola – A vida secreta de uma mãe caótica possui a narrativa em primeira pessoa e a construção psicológica da personagem principal. Lucy é tão divertida e atrapalhada quanto a solteirona balzaca Bridget, porque encarna o estereótipo de todos os nossos defeitos – e virtudes – femininas (melhor dizendo, humanas). Além disso, também vive um dilema bridgetiano: deve escolher ficar com o sujeito certinho e meio previsível (o marido Tom) ou jogar-se numa aventura com um conquistador charmoso e pai dos coleguinhas de seus filhos no ensino fundamental? Sentindo-se engolfar pela rotina doméstica entediante, a aventura – e o adultério que vem de brinde – assemelha-se a uma ilha de prazeres proibidos e secretos que revelariam a verdadeira Lucy, uma jovem radiante e cheia de projetos antes do casamento. Haja força de vontade para não deixar-se levar. Mas será que Lucy é forte o bastante? Ou será que vale a pena sacrificar a cumplicidade adquirida por uma vida em comum com o marido apenas pelo sabor da aventura?

Bridget (no cinema Renée Zellweger), dividida entre o bom moço Darcy (Colin Firth) e o bon vivant Daniel (Hugh Grant). Dilema semelhante ao da mãe caótica Lucy

As torturas psicológicas da personagem são tratadas com muita graça pela autora. Queremos ver Lucy se debater no seu dilema “trair ou não trair o marido, eis a questão”, porque quanto mais ela se sente culpada, mais confusa fica e mais divertido é o desenrolar da história. A autora também brinca com os conceitos de fidelidade e decoro impostos pela nossa construção social e com a moral apregoada pela religião, sem no entanto subverter ou tecer juízos de valor. Deixa a critério de cada um tomar a defesa ou jogar mais uma pedra em Lucy.

Brincando com estereótipos – Mordaz e irônica – a fleuma britânica atuando em favor da condução narrativa – a personagem é carismática porque encarna dramas da vida cotidiana e ordinária, mas é também muito irritante porque por mais que as leitoras se reconheçam em alguma situação vivida pela protagonista, ninguém gosta de assumir-se passivo diante da vida. No fundo, torcemos para que ela organize não apenas a bagunça na cozinha, mas sobretudo na própria cabeça. A redenção de Lucy é o passaporte para manter o status quo de mulheres modernas e pseudo bem resolvidas. Se ela fracassar, o ideal de mulher maravilha desaba junto.

A intenção da obra é usar lentes de aumento para acentuar e fazer piada, de forma inteligente e perspicaz, com os defeitos humanos. O livro está cheio de estereótipos impagáveis como a classificação que Lucy faz mentalmente das mães e pais da escola primária: a “mãe alfa” é a super competitiva que, uma vez fora do mercado por conta das obrigações maternas, transforma a própria casa em sucursal de multinacional, estabelecendo regras marciais para as crianças; a “mãe gostosa número um” é a rata de academia e de salão de beleza, com cartão de crédito ilimitado e batalhões de empregados para cuidar das crianças enquanto ela retoca a maquiagem; já as mães caóticas, como Lucy, são as mortais comuns que não tem nem disciplina e nem conta bancária para pertencer às duas categorias anteriores. No meio desse mulherio almodoviano (à beira de um ataque de nervos), está o “pai sexualmente domesticado”, aparentemente bem casado e dedicado.

No fim das contas, trata-se de uma obra de autodescoberta, mas ao invés de descambar para o dramalhão ou a autoajuda, a autora segue o caminho do escracho e revela-se uma sagaz observadora do comportamento humano, principalmente feminino, diante de tantas exigências e papeis ainda rigidamente demarcados no jogo afetivo e social.

Ficha Técnica:
A vida secreta de uma mãe caótica

Autora: Fiona Neill

Tradução: Cássia Zanon

Grupo Editorial Record

480 páginas / R$ 59,90