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Micrômegas: uma viagem estelar de ironia em ironia

postado por Andreia Santana @ 2:57 PM
21 de maio de 2012

“porque nós aqui, nesta nossa bolinha de barro, não costumamos pensar em nada que seja diferente dos nossos próprios costumes.”(Voltaire)

Um ser colossal, sábio e carismático que viaja em caudas de cometa e raios de sol por diversos planetas até chegar à Terra. No século XVIII, o pensador francês Voltaire (um dos pais do Iluminismo), criou um pequeno libelo ao livre pensamento, usando para isso uma linguagem recheada de ironia. Micrômegas – Uma viagem filosófica inspira-se em As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, e é leitura instigante para crianças e adultos.

Através das investigações filosófico científicas desse gigante com altura quilométrica, o autor questiona os valores da sociedade do seu tempo e ironiza a igreja e a perseguição que a fé empreende à evolução da ciência. Não poupa também as indolentes cortes europeias, com seus pseudo-sábios, acomodados ao conhecimento já estabelecido e incapazes de questionar o status quo.

Micrômegas, o nome do gigante é o mesmo do livro, é um ser inquieto, milenar, dotado de conhecimentos muito acima da capacidade dos seres humanos, mas ainda assim, mostrando-se discípulo de uma tradição socrática, considera-se um mero aprendiz. De planeta em planeta, ele tenta saciar sua curiosidade inata, mas percebe que o universo é pontuado de criaturas infinitamente menores que ele tanto em tamanho quanto em sabedoria, que de forma arrogante consideram-se geniais.

Era de se esperar que uma obra para crianças, ainda mais escrita por um filósofo do século XVIII, trouxesse fórmulas morais prontas. Mas Voltaire não pretende catequizar seus jovens leitores, apenas levá-los a questionar o óbvio e enxergar além da aparência ordinária das coisas. De certa forma, o livro é ainda um libelo contra o preconceito, pois Micrômegas, embora muito mais evoluído que os seres que visita, está sempre disposto a ouvi-los e aprender.

A edição em português, da Autêntica, é bem cuidada e recheada de notas de rodapé que familiarizam o leitor tanto com os costumes do tempo de Voltaire quanto com seus conceitos científicos e filosóficos. No tempo do autor, por exemplo, ainda não se havia descoberto o átomo. Com a contextualização, ao invés de dar a impressão de que o livro é ultrapassado, a edição mostra que as descobertas, mas principalmente aquilo que os cientistas do tempo de Voltaire não sabiam, é que impulsionou a nossa evolução.

O livro é uma mistura acertada de investigação empírica com dedução lógica, mas seu grande mérito é colocar as coisas sob perspectivas diferentes. A própria metáfora da altura descomunal de Micrômegas é uma forma de nos levar, humanos tão pequenos e tão cheios de si, a olhar a vida sempre por ângulos diferentes.

Ficha Técnica:

Micrômegas – Uma história filosófica

Autor: Voltaire

Tradução: Maria Valéria Rezende

Ilustração: Diogo Droschi

64 páginas

R$ 29,90


Resenha: Vadios e Ciganos, Heréticos e Bruxas

postado por Andreia Santana @ 9:01 PM
30 de maio de 2011

Amantes de História – meu caso – vão se deleitar com Vadios e Ciganos, Heréticos e Bruxas – Os degredados no Brasil Colônia. Mas amantes de histórias – meu caso também -, podem se decepcionar se a expectativa for uma narrativa quase mítica em torno da epopéia dos expatriados que, a contragosto, ajudaram a colonizar o Brasil.

Se a referência do leitor é o texto leve e irônico de um Eduardo Bueno da vida, melhor esquecer. Geraldo Pieroni é um historiador e o livro deriva de sua tese de doutorado. Embora com linguagem simplificada, e de fácil assimilação – sem academicismo metido a besta -, é leitura no mínimo, para quem curtiu muito as aulas de História no ensino médio. Sendo que alguns trechos realmente falam mais ao coração dos pesquisadores profissionais. Quem não gosta dessa perspectiva científica e prefere as anedotas históricas, melhor ficar com o estilo de Bueno, autor de quem também gosto, dentro do seu nicho, vale ressaltar.

Pieroni escreve com fluidez e boa cadência narrativa, mas não consegue deixar de ser didático e nesse sentido o livro é maravilhoso e serve tanto como recurso complementar na escola como para historiadores amadores ou profissionais. Mas, o leitor em busca de aventura, não se sente seduzido a também singrar os mares na companhia dos homens e mulheres que foram condenados ao desterro desse lado do Atlântico. Em alguns momentos, o texto torna-se enfadonho pela necessidade de descrições mais acadêmicas. Mesmo quando narra trechos das vidas de alguns degredados, o autor não avança além do relato dos fatos, como um professor faria em sala de aula, sem aquela pincelada romanesca que o tema sugere.

Lógico que, não se trata de romance, e sim de um livro sobre um aspecto ainda pouco explorado da História do Brasil e que rende bastante pano para a manga. Outro trunfo da obra é justamente esse, o autor resgatou todo um grupo de indivíduos que ao longo da história do país foi mal compreendido e pior ainda descrito. Nesse sentido, o livro é importantíssimo para desmentir velhos tabus que atribuem toda sorte de desgraças sociais do Brasil de agora aos degredados enviados para cá por crimes muitas vezes ridículos e que atualmente não renderiam nem uma multa de trânsito, que dirá uma punição tão severa quanto o degredo.

Bacana também que ele mostra os conchavos e interesses políticos e econômicos da coroa portuguesa por trás da imposição das penas de degredo, principalmente para certas famílias mais abastadas, como as de cristãos-novos (judeus convertidos ao catolicismo) e que eram desterrados sob acusação de manter as antigas práticas. Os bens das famílias, claro, não cruzavam o oceano com elas.

Mas, depois de ler O português que nos pariu, de Angela Dutra de Menezes, igualmente sério no seu teor histórico-documental, mas deliciosamente leve na forma, Vadios e Ciganos… decepciona um pouco pela irregularidade: quando a leitura embala, lá vem uma certa sisudez cortar o barato. Isso fica claro logo na Introdução, quando o autor começa a descrever o processo no Santo Ofício de uma degredada chamada Maria Seixas, acusada de bruxaria e invocação ao demônio. O leitor automaticamente se transporta para o Portugal medieval, mas quando começa a entrar na pele de Maria Seixas, a magia se dilui.

Pessoalmente, prefiro que a História seja contada com toda a seriedade documental e de pesquisa que Pieroni dá ao seu livro, mas que esse conhecimento me seja transmitido quase que como num conto saído das Mil e Uma Noites, ou como num sarau ao pé da fogueira. Mas aí, é questão de preferência pessoal, mesmo.

Ficha Técnica:

Vadios e Ciganos, Heréticos e Bruxas

Autor: Geraldo Pieroni

Editora: Bertrand do Brasil

144 páginas

R$ 29,90


Estranha Presença: Terror à moda Hitchcock

postado por Andreia Santana @ 4:34 PM
23 de maio de 2011

Sarah Waters propõe uma guerra de nervos com o leitor, nos moldes de obras como o primoroso Psicose, de Alfred Hitchcock

Ler o romance Estranha Presença me lembrou o filme O orfanato, de Juan Antonio Bayona, estrelado por Belén Rueda. A obra, tal qual a produção cinematográfica, se passa em uma casa antiga, decadente, claustrofóbica apesar do tamanho, cheia de quartos escuros e mistérios do passado. A semelhança do livro de Sarah Waters com o filme não fica por aí. Trata-se do mesmo tipo de atmosfera assustadora que une o sobrenatural das típicas histórias de fantasma e o psicológico. Tem uma nuance de Psicose, de Alfred Hitchcock. Nas mãos do mestre, Estranha Presença se tornaria tão primoroso quanto a saga de Norman Bates.

Há um mal interno que alimenta forças sinistras exteriores que, uma vez liberadas, agirão até as últimas conseqüências. O tom fatalista acompanha o romance desde o primeiro capítulo e em certos momentos, torna a leitura angustiante.

O livro conta a história de uma família de aristocratas ingleses falida após a II Guerra Mundial e vivendo em uma antiga mansão rural arruinada. O pano de fundo é a morte de um modo de vida e o surgimento de outro. Parte das terras da antiga fazenda foi desapropriada para que o governo construa loteamentos de casas para uma nova classe média emergente. A família Ayres, enquanto ressente-se da glória perdida e teme a aproximação da “ralé”, afunda em dívidas e dramas psicológicos que desenterram medos profundos e antigos. A loucura ronda.

A história é contada pelo amigo dos Ayres, um comedido, pacato, porém ambicioso, médico que encarna o protótipo do homem metódico e fleumático britânico, chamado Faraday. Vindo dessa mesma ralé rejeitada pelos aristocratas, ao longo da trama, ele ganha a confiança da família por sua aparente solidez moral e mental. A proximidade com a atormentada família, porém, envolve-o nos acontecimentos sobrenaturais que tem como cenário a sinistra mansão de Hundreds Hall.

A narrativa hábil de Sara Waters propõe o bom e velho jogo de espelhos. Nem tudo é o que parece ser e as conclusões mais apressadas do leitor acabam frustradas pela habilidosa e intrincada trama da autora. Para quem gosta de ser surpreendido,  as expectativas são prontamente atendidas. Além disso, ela propõe um romance entre Faraday e a herdeira da mansão, Caroline Ayres, pontuado por preconceitos de classe, expectativas e desejos de uma fuga da realidade ansiada pelos dois. O leitor tem uma intuição do que poderá resultar de semelhante enlace, mas a autora ilude a percepção até dos mais argutos.

A trama contada por um observador também envolvido na história, não deixa de trazer aquelas questões de sempre sobre o quanto da nossa visão de leitor está contaminada pelo olhar de um único personagem. A dica é ler as entrelinhas, ter em mente a sequência cronológica dos fatos e se ater aos “atos falhos” da narrativa de Faraday. Pelo desafio à sagacidade do leitor, o texto lembra Conan Doyle e Agatha Christie, não à toa dois autores britânicos – assim como também é o cineasta Alfred Hitchcock – de literatura de mistério que precederam Sarah Waters e lançaram bases sólidas para este tipo de entretenimento que não se pretende elaboradíssimo ou erudito, mas é intenso dentro da sua proposta.

Ficha Técnica:
Estranha Presença

Autora: Sarah Waters

Tradução: Ana Luiza Dantas Borges

Editora Record

4480 páginas / Preço: 57,90


A beleza e o inferno: Desabafos de um prisioneiro da palavra

postado por Andreia Santana @ 3:45 PM
20 de maio de 2011

As palavras são perigosas quando encontram quem as leia e dissemine. Ao longo das quase 300 páginas do livro de crônicas A beleza e o inferno (Ed. Bertrand do Brasil), o jornalista italiano Roberto Saviano reafirma a máxima, marcando-a com tinta preta no coração de seus fãs. É para a legião de leitores, em mais de 40 países, que o autor do bestseller Gomorra dedica essa espécie de Memórias do Cárcere contemporâneo. A diferença é que a prisão de Saviano não é a mesma cadeia para presos políticos contrários à ditadura Vargas no Brasil dos anos 30, como aconteceu com Graciliano Ramos, mas quartos de hotel onde protege-se das ameaças da Camorra.

Saviano quer permanecer vivo para escrever e denunciar o crime organizado em escala global. Gomorra, o bombástico livro de estreia, foi levado ao cinema em 2008 e virou febre mundial, vencendo inclusive o prêmio principal do Festival de Cannes, em 2009, mesmo ano em que o livro que desvenda os bastidores da máfia chegava ao Brasil, também pela Bertrand. “Foram vocês que transformaram Gomorra em um livro perigoso”, escreve Saviano na crônica onde relembra sua viagem à França, para o festival, junto com os adolescentes que no cinema vivem os jovens aprendizes do crime que o escritor descreve com um realismo brutal em seu bestseller.

Os mafiosos de Gomorra e de A beleza e o inferno não tem o carisma dos criminosos denunciados por Roberto Saviano

Tanto o comentadíssimo Gomorra quanto este A beleza e o inferno não são obras para quem tem estômago fraco. Os dois desmistificam a máfia de Mário Puzzo. Os chefões denunciados pelo jornalista cometem atrocidades que em nada lembram o carisma de Marlon Brando ou de Al Pacino na trilogia O poderoso chefão. Aliás, depois de ler Saviano, a visão do leitor sobre a máfia e os gangsters de  Nova York corre sérios riscos de perder 99% daquele glamour cinematográfico dos filmes sobre os anos 20, Al Capone, John Dillinger e Bonny & Clyde.

Para os brasileiros, algumas crônicas pecam pela falta de contexto. As escassas notas de rodapé e citações no final do livro não dão conta de explicar boa parte dos personagens (reais) citados na obra. A menos que o leitor em questão tenha acompanhado os últimos cinco anos da vida do escritor, conheça o livro ou o filme Gomorra, tenha lido seus polêmicos artigos (ele continua denunciando os crimes da máfia), ou visto as entrevistas concedidas em talk shows, alguns textos de A beleza… ficam difíceis de acompanhar.

Sem papas na língua, ora em tom revoltado, ora confessional, mas com um domínio exemplar das mesmas palavras que colocam sua vida em risco permanente, Saviano parece uma versão mais jovem de Salman Rushdie (Os versos satânicos). As histórias dos dois, inclusive, já foram comparadas, ao menos no que diz respeito a ter a cabeça posta a prêmio, um por criminosos e o outro por fundamentalistas islâmicos. Eles até se encontraram, na sede do Nobel, e o encontro virou uma das crônicas de A beleza e o inferno.

A personalidade latina e a verborragia de Roberto Saviano, inclusive, são frequentemente citadas pelos que querem desacreditar suas denúncias sob alegação de que ele não passa de um oportunista em busca de holofotes. Também tem crônica sobre isso. Ele não esconde nada, não poupa nomes.

Mas, fazendo jus ao título poético, o livro não é só o peso das ameaças ou denúncias sobre o assassinato de colegas jornalistas eliminados pela máfia, mas também traz textos líricos que versam sobre a paixão do escritor pelo cinema e até, um artigo que fará os boleiros de plantão chorarem de emoção, em que de forma quase quixotesca, Saviano biografa o jogador Leonel Messi, de quem é fã.

Para quem gosta de livros que expõem os dois lados da vida: sua mistura de crueldade e doçura, muitas vezes em desequilíbrio, é leitura recomendada.

Quem é: Roberto Saviano 32, nasceu em Nápoles e é formado em filosofia, além de ser jornalista e escritor. Quando era repórter, investigou diversos desmandos cometidos pela máfia e denunciou as conexões do crime organizado italiano com outras organizações, como a nigeriana. Após publicar  o bestseller Gomorra, foi ameaçado de morte pelos chefões napolitanos e hoje vive sob proteção permanente. Seus artigos são publicados em veículos como La Republica, Times e Washington Post.

Ficha técnica:
A beleza e o inferno

Autor: Roberto Saviano

Tradução: Karina Jannini

Editora: Bertrand do Brasil

294 páginas / R$39,00


Resenha: A menina que não sabia ler (John Harding)

postado por Andreia Santana @ 6:40 PM
11 de abril de 2011

Um grande gole na fonte do bom e velho Poe

Finais em aberto ou desfechos inesperados não costumam cair no gosto do leitor médio. Mas as opiniões contrárias ao livro A menina que não sabia ler partem de um mal entendido da tradução em português, que por um equívoco na titulação, associa essa obra de John Harding ao magistral A menina que roubava livros (Marcus Zusak). No entanto, o erro não é do autor de Florence and Giles, o título original de A menina que não sabia ler. Conhecendo esse título, é bem mais fácil compreender as intenções do autor.

Primeiro, é importante ressaltar que o livro de Harding não tem a menor semelhança com a história comovente de Liesel Meminger, personagem principal de A menina que roubava livros. Portanto, quem vai ler um pensando no outro, limpe a mente a abra-a para uma experiência diferente. A única coincidência entre um e outro é que as duas obras falam do fascínio da leitura, mas por caminhos próprios. Enquanto Zusak ambienta sua obra na Alemanha nazista, por exemplo, John Harding escolhe a Nova Inglaterra (Virgínia) do final do século XIX para tecer a aura de mistério que envolve sua trama.

No entanto, Florence, a personagem principal de Harding, lembra sim uma outra protagonista da literatura. A mim, ao menos, parece tão dissimuladamente cativante quanto a Fany de Jane Austen (Mansfield Park). E não é só uma justa homenagem ao lado obscuro e subentendido de Fany que o autor de A menina que não sabia ler faz nesta obra. Usando os clichês da literatura de suspense de forma bastante inteligente, ele rende uma justa homenagem a atmosfera sombria e lúgubre das obras de Edgar Allan Poe.

Mansão decrépita do filme The Changeling (1981), poderia ser o cenário perfeito para A menina que não sabia ler

Muita gente tem dito que o livro bebe na fonte de A volta do parafuso. Mas, honestamente, há apenas um perfume de Henry James, algo bem sutil, que paira no ar e nos recônditos da velha mansão decadente que serve de cenário ao drama de Florence e de seu irmãozinho Giles.

A menina que não sabia ler é Edgar Allan Poe até a medula. Não à toa, Florence é fã do escritor. A descrença na humanidade presente nas obras de Poe, além de seus personagens atormentados, a loucura e o que se esconde na escuridão, seja de um quarto ou da mente de uma criança abandonada à própria sorte, são o pano de fundo dessa narrativa que no fundo fala mesmo é da solidão, da indiferença dos adultos e do quanto um amor incondicional, como o de uma irmã mais velha pelo irmãozinho, podem ser uma combinação perigosa se não existe um ponto de equilíbrio.

Os livros, alimento para a imaginação, ao invés de consolar como no caso de Liesel Meminger, em A menina que não sabia ler servem apenas de combustível para queimar ressentimentos adormecidos desde a mais tenra infância.

Além de me lembrar Fany, com sua doçura calculada e por vezes cínica, Florence também me lembra Bentinho, personagem de Don Casmurro (obra ícone de Machado de Assis). Isso porque, narrado em primeira pessoa, pela própria Florence, o livro só nos mostra uma perspectiva das coisas, e sempre sob o ponto de vista imaginativo dela. Se em Dom Casmurro somos levados a desconfiar de Capitu graças aos ciúmes e as distorções de percepção que o sentimento provoca no olhar de Bentinho; em A menina que não sabia ler, embarcamos, até certo ponto, nos devaneios solitários de Florence, atiçados pelos livros que leu e pela negligência de quem deveria cuidar dela. Vemos a mansão, Giles e principalmente os adultos, sob o foco da menina.

O golpe de mestre de John Harding é levar o leitor em banho-maria, fazendo-o acreditar que está diante de uma coisa, de um “conto sobre a doce órfã Anne”. Mas pouco a pouco, a cortina é descerrada, provocando incredulidade e até repulsa. Essa transição porém, não é feita de maneira improvisada. Os indícios, para o bom entendedor, estão visíveis ao longo do livro. Como um hábil artífice, ele constrói sua trama fio a fio e enreda o leitor, tornando-o um cúmplice involuntário. E aqui, nesse joguinho hábil de mostra e esconde, ele lembra a dama Agatha Christie.

Vale ainda ressaltar que, embora com tantas citações a gêneros e autores célebres, A menina que não sabia ler tem ritmo e encanto próprios. Não é imitação, mas reverência aos mestres. Por ser ambientado no século XIX e narrado por uma personagem desta época, o livro tem ainda uma linguagem que em certos momentos parece revestida do pó solene do tempo. O que para mim ao menos, é um molho a mais.

Ficha Técnica:

A menina que não sabia ler (Florence and Giles)

Autor: John Harding

Editora: Leya

288 páginas

R$ 39,90


Resenha: Trio de Vênus (Patrícia Gaffney)

postado por Andreia Santana @ 7:56 PM
6 de abril de 2011

O olhar feminino sobre a vida, a morte e as relações

Trio de Vênus é um típico romance escrito para mulheres, por uma mulher, sobre a vida de três outras mulheres de gerações diferentes de uma mesma família vivendo um luto. Mas, não digo isso para desmerecer a obra, ao contrário, se virasse filme, daria uma daquelas produções delicadas, como o belíssimo Ao entardecer (Lajos Koltai, 2008), que enfatizam o olhar feminino sobre a vida, a morte e as relações afetivas.

O livro conta a história de Carrie, uma viúva de 42 anos, ainda na flor da idade, mas cheia de culpa e recalques, que se martiriza pela morte do homem com quem foi casada por 18 anos, mais por acomodação do que por amor. Ela é a mãe de outra protagonista, Ruth, uma garota de 15 anos, que serve de amparo a essa mãe imatura emocionalmente; e a única filha da terceira vértice do triângulo, Dana, uma senhora que, aos 70 anos, mantém  uma personalidade tão forte e dominadora que sufoca as outras mulheres da família.

Meryl Streep e Vannesa Redgrave em cena de Ao entardecer

Trio de Vênus não é um livro para quem busca emoções fortes ou grandes revelações, não tem rebuscamento narrativo e tampouco é dotado de grande erudição. Mas Patrícia Gaffney, embora retrate o cotidiano singelo de uma viúva, sua filha e sua mãe em uma cidadezinha caipira norte-americana, consegue prender a atenção ao longo das mais de 500 páginas da obra apenas apelando à narrativa simples e direta e ao que mais mobiliza as mulheres, os sentimentos e as dificuldades – ou não – em expressá-los.

O livro é narrado em primeira pessoa pelas três protagonistas e dessa forma o leitor tem a chance de perceber a história sob três pontos de vista totalmente diferentes e complementares. Como pano de fundo para esse pequeno drama familiar, Patricia Gaffney insere a história de um homem que, à beira da morte, pretende construir uma réplica da Arca de Noé para reconciliar-se com Deus. No geral, embora traga um rico mosaico de personagens masculinos, a força da história está mesmo no trio de vênus.

Carrie, artista plástica frustrada por ter desistido da carreira em prol da família, é contratada para executar os casais de animais que irão embarcar na arca fictícia. Enquanto constrói as réplicas, contrariando as vontades da mãe e da filha, busca ela mesma reconciliar-se com a memória do marido e com os fracassos de sua vida, todos atribuídos à criação repressora que recebeu de Dana.

O tema principal da obra não é a dor da perda de um ente querido em si, mas mostrar como é possível sobreviver às várias perdas – várias mortes – que nos acompanham ao longo da vida: seja de pessoas próximas, ou dos sonhos e da juventude. O luto na história antecede o renascimento.

Cada uma das personagens, a seu modo, busca um recomeço individual e uma reconciliação com as demais. Mas apesar do tema denso, não faltam a Trio de Vênus pitadas de romance e um senso de humor crítico, irônico e questionador: até que ponto as mulheres podem – ou devem – culpar suas mães pelas escolhas que fizeram ou deixaram de fazer na vida?

Ficha técnica:
Trio de Vênus

Autora: Patricia Gaffney

Tradução: Beth Leal

Editora: Bertrand do Brasil

504 páginas / Preço: R$ 52,00


Resenha: A Rainha da Fofoca em Nova York (Meg Cabot)

postado por Andreia Santana @ 7:58 PM
13 de fevereiro de 2011

Garotas querem mais que apenas diversão
A linguaruda Lizzie Nichols está de volta em romance ácido, irônico e divertido

Cindy Lauper que me perdoe, mas as garotas querem mais do que apenas diversão. E no caso de Lizzie Nichols, uma das personagens cinematográficas de Meg Cabot, a moça quer casar e não há nada de demodé nisso! Em A Rainha da Fofoca em Nova York (Ed. Galera/Record), a personagem está de volta mais adulta e, ainda assim, mantém a ingenuidade e expectativas de adolescente recém-saída da High School.

O livro trata do universo feminino americano, mas, guardadas as devidas proporções, se encaixa na vida de jovens na faixa dos vinte e poucos por aqui também. Primeiro, porque vivemos tempos de Globalização e a cultura de um país, em certa medida, é apropriada e pertence a vários. Além disso, casadoiras cândidas, atrapalhadas e cheias de boas intenções, que de vez em quando pagam mico ou pisam na bola, não são uma prerrogativa exclusiva de uma cultura, ou país, em particular.

Nessa continuação do bombado A Rainha da Fofoca – e qual livro de Meg Cabot não cai nas graças da mulherada? -, Lizzie se muda para Nova York para realizar o sonho de abrir um ateliê de reforma e customização de vestidos de noiva. E aqui um parêntese para as páginas do Manual de Casamento de Lizzie, que intercala os capítulos, com seus deliciosos textos e desenhos em estilo “passo a passo para o altar”. Além das divertidas dicas, o “manual” não fica devendo em nada aos melhores consultores de uma fina maison para noivas. Sinal de que a autora pesquisou esse mundo dos cerimoniais, tornando sua personagem convincente e cativante.

Kristen Bell é cotada para viver Lizzie Nichols no cinema. Os produtores de Meninos Não Choram compraram os direitos da trilogia A Rainha da Fofoca

Fashionismo, ironia inteligente e uma divertida combinação de comédia romântica com humor pastelão são elementos que nunca faltam às obras de Meg Cabot e podem indicar porque a escritora é queridinha global. As leitoras se vêem nas histórias – mais uma vez guardadas às devidas proporções – e num mundo tão narcisista, em que mostrar-se ganha cada vez mais importância, obras que traduzem o comportamento da geração atual são um estudo antropológico, mas sem o peso do academicismo.

A verdade é que, com o perdão do lugar comum, a danada da autora sabe falar com suas leitoras e mais, consegue cativar até quem não era muito afeita ao Chick Lit. O estilo narrativo inconfundível, ágil e pontuado por situações tanto prosaicas quanto improváveis, fazem de A Rainha da Fofoca em Nova York mais um Meg Cabot na essência, sem que com isso a autora esteja se repetindo.

Lizzie fala demais e quase sempre sem pensar nas conseqüências, é sonhadora e em paralelo a abrir sua loja e vencer na “cidade grande”, fugindo do previsível futuro classe média do american way of life, quer o que boa parte das mulheres querem – e aquelas que não querem é porque ainda não admitiram -: encontrar o príncipe encantado. Ou pelo menos um parceiro confiável – e amável – com quem tocar a vida.

A capacidade da escritora se reinventar abordando sempre os mesmos temas “de mulherzinha” (ao menos nos seus romances femininos, já que ela também tem obras com outros estilos), mas sem a antropofagia de consumir suas próprias criações por falta de ideias novas, é estarrecedor e ao mesmo tempo um alento às suas leitoras.

Meg Cabot

Lizzie Nichols não se parece com Heather (Tamanho 42 não é gorda) e muito menos lembra a fofa Mia da saga Diário da Princesa, só para citar algumas das heroínas inesquecíveis da escritora. Embora as três personagens tenham em comum a pegada cosmopolita nova iorquina (essa é a cidade por excelência do Chick Lit) e tragam a “essência Cabot”, são mulheres em estágios da vida diferentes, que vivem situações compatíveis com suas faixas etárias, mas que trazem traços em comum a todas as mulheres, na vida ou na ficção: a necessidade de planejar o futuro, a capacidade de amar incondicionalmente (ou quase), as inseguranças com a balança, a cumplicidade com as amigas… Isso só para citar alguns exemplos.

Não se trata aqui de uma literatura de grandes e dramáticos conflitos, ou de recursos estilísticos e narrativos revolucionários. É pura e simplesmente a delícia do cotidiano miudinho e cor de rosa. Novelinha leve, descompromissada e com seu charme de espelho de Alice em que todas se vêem e sentem-se devidamente representadas.

Ficha Técnica:
A rainha da fofoca em Nova York

Autora: Meg Cabot

Tradução: Ana Ban

Editora: Galera / Record

431 páginas / Preço: R$ 39,90


Resenha: A paixão de Artemísia (Susan Vreeland)

postado por Andreia Santana @ 6:12 PM
5 de fevereiro de 2011

Por amor a arte e pelo resgate de si mesma
Biografia romanceada conta história de superação da pintora renascentista Artemísia Gentileschi

Para quem gosta de histórias edificantes e de heroínas que superam todas as dificuldades em busca de realizar seu maior sonho, A paixão de Artemísia (Ed. José Olympio) é um prato cheio. A história trágica e o fato da personagem ter existido e conquistado reputação como artista em um mundo dominado por homens e regras rígidas de comportamento, só dão um molho ainda mais condimentado a essa biografia romanceada de uma das únicas pintoras que o Renascimento conheceu: Artemísia Gentileschi (Floresça, 1593-1653).

A autora Susan Vreeland poderia fácil ter descambado para o melodrama, porque a vida de Artemísia renderia um daqueles filmes bem lacrimosos sem muito esforço, mas ao invés de transformar sua heroína em mártir, a escritora faz a opção por mostrar o árduo caminho de uma mulher na descoberta de si mesma. É dramático, mas nem de longe piegas. O livro mescla de forma competente, os principais fatos da vida real e dolorosa de Artemísia com situações fictícias que dão o tempero a mais da obra, mas sem perder a dosagem. Pode tanto ser lido como um belo romance feminino que honra a tradição de uma Jane Austen, por exemplo, como pode ser saboreado como o rico panorama de um dos movimentos artísticos mais fascinantes da história. Não faltam alusões a Galileu, Michelangelo Buonarroti (sobrinho de Michelangelo) e outros artistas e cientistas célebres da época.

Valentina Cervi viveu a pintora Artemísia Gentileschi em cinebiografia de 1997, da Miramax

Imbuída de uma dignidade inata, Artemísia foi um daqueles espíritos geniais, que só de tempos em tempos povoa a terra. Dona de um dom artístico que provinha de uma sensibilidade impar para perceber o mundo, ela precisou brigar não só contra o preconceito de gênero para afirmar-se na academia de pintura de Floresça, mas também contra o ciúme e as “panelinhas” existentes nesse meio.

A concorrência era dura entre os homens, porque os artistas disputavam – nem sempre de forma muito honesta – as benesses das famílias nobres e abastadas. Era o tempo do mecenato e um artista sem um mecenas rico não ia muito longe. Para uma mulher, atrair os favores de um desses patrocinadores sem que ele cobrasse mais do que belos quadros, era uma conquista digna da mais acirrada feminista. Na ocasião em que Artemísia floresceu como artista, as mulheres eram aceitas nas academias de arte apenas como modelos para quadros e esculturas. Ela foi pioneira em buscar para as mulheres um lugar de destaque do lado oposto do cavalete.

A vida pessoal atribulada contribuiu para que se transformasse numa espécie de mito. Aos 18 anos, foi estuprada por seu professor de pintura. Seu pai denunciou o agressor à corte, mas de vítima, por hábeis manobras dos juízes, Artemísia passou facilmente a ré. Foi torturada com ferramentas da Inquisição para confessar que ao invés de ter sido agredida, havia se insinuado para o professor! Saiu do julgamento com a reputação na lama e o corpo alquebrado pelos castigos físicos, mas nunca deixou de acreditar na própria arte, que conquistou até a mais poderosa família italiana do período, os Médici.

Vênus e Cupido, quadro de 1625, de Artemísia Gentileschi. Os nus da artista tornaram-se famosos pela expressividade quase real que o corpo feminino ganhava em suas telas

Os fatos narrados sobre o estupro, o julgamento, o casamento de conveniência que o pai a obrigou a aceitar após a violência sexual, a filha que teve com o marido arranjado, o rompimento com a família e suas inúmeras viagens de cidade em cidade em busca de patrocínio, não são propriamente novidade. As biografias oficiais da artista – até no Google – trazem esses e outros detalhes.

Mas o que Susan Vreeland faz é tecer com a imaginação de boa contadora de histórias, as motivações pessoais que levaram Artemísia a escolher os caminhos que percorreu na vida. Ela vai além da cronologia dos fatos e explora, por exemplo, os dilemas de mãe e artista, em conflito eterno entre cuidar da filha e deixar-se envolver pelo turbilhão criativo. Paradoxo aliás, que aproxima essa mulher que viveu há quatro séculos, das mães de agora.

Através de descrições minuciosas dos quadros de Artemísia Gentileschi que sobreviveram à corrosão do tempo, Vreeland teoriza sobre a alma dessa mulher que tinha tudo para ter sido engolida pela vida, mas que decidiu beber até a última gota da taça de amarguras que lhe foi legada, usando uma metáfora bem renascentista, e extraiu de cada adversidade a matéria-prima de sua aclamada expressão artística.

Ao longo da vida, Artemísia transformou suas dores em quadros de nus femininos – outra revolução para a época, porque os nus dela eram a máxima expressão da realidade -, metáfora para o desamparo e a superação diária das mulheres vivendo em um mundo cruelmente masculino em seu tempo e, de certa, em todos os tempos antes e depois dela.

Ficha técnica:
A paixão de Artemísia

Susan Vreeland

Tradução: Beatriz Horta

Editora: José Olympio / 272 páginas / R$ 45,00


Resenha: Julieta (Anne Fortier)

postado por Andreia Santana @ 11:23 PM
31 de janeiro de 2011

Romeu e Julieta para além das fronteiras de Verona… e do tempo
Em thriller que lembra O código Da Vinci, Anne Fortier recria a saga da jovem heroína da imortal história de amor de William Shakespeare

Romeu e Julieta é uma história que pertence ao panteão dos mitos literários e, portanto, é intocável e irretocável, certo? Nem tanto. Embora não se atreva a reescrever a obra mais famosa de William Shakespeare, a dinamarquesa Anne Fortier, em seu romance de estreia, vem causando tanta sensação quanto Dan Brown na época em que lançou O código Da VinciJulieta, publicado no Brasil pela Sextante, a mesma editora das obras de Brown em português, mostra que nestes tempos de pouca novidade e muita reconfiguração, nem a heroína trágica do bardo inglês escapa a uma revisada.

Para o caso dos mais puristas já terem torcido o nariz, aviso: Julieta é bem mais interessante do que uma mera imitação da obra original. Dando mostras de conhecer bem o terreno onde pisa – nesse caso, a bibliografia de Shakespeare -, Anne Fortier cria um thriller de suspense que não visa necessariamente recontar Romeu e Julieta, mas mostrar outros ângulos da malfadada história de amor. É ficção verossímil, inteligente, envolvente, de leitura rápida e fluída, mas que funciona também como um tributo ao bardo.

O livro conta a história das gêmeas Julie e Jeanice, duas jovens que nasceram em Siena, mas após a morte dos pais, foram criadas por uma tia-avó nos Estados Unidos, desde os três anos de idade. Com a morte dessa parenta, Julie, agora com 25 anos, descobre que na verdade se chama Giulietta Tolomei e que em Siena existe um misterioso tesouro deixado por sua mãe. O tesouro teria relação com o trágico fim de um jovem chamado Romeu Marescotti e de sua amada Giulietta Tolomei, de quem Julie herdou o nome. Os dois seriam os supostos personagens reais que inspiraram Shakespeare a escrever sua famosa obra. Após a hesitação inicial, Julie/Giulietta se muda para a Itália e começa a busca pelo tesouro, mas acaba na mira da máfia e às voltas com os efeitos de uma maldição que pesa sobre seu nome há 600 anos.

A mistura parece impossível de dar certo, mas para quem busca uma boa leitura de entretenimento, funciona muito bem. Com maestria, a autora descreve a Siena do século XXI, uma cidade ainda apegada às tradições medievais e de grande beleza histórica, mas em eterno conflito entre passado e presente. A narrativa intercala as agruras e aventuras da Giulietta contemporânea com os trechos do diário de um pintor do século XIV, verdadeira testemunha ocular do fim trágico de sua antepassada.

Mas se Romeu e Julieta (o romance de Shakespeare, que na verdade foi escrito para o teatro) se passa em Verona, por que este recria o mito em Siena? Tem explicação para a pergunta e até embasamento histórico. Segundo Anne Fortier, no posfácio de seu livro, existe uma tradição sienense que dá conta de relatos pré-Shakespeare sobre um triste caso de amor, traição e morte, ocorrido no século XIV e envolvendo famílias que governavam a Siena medieval. A cidade toscana teria sido uma das mais violentas na Idade Média e para quem ainda se lembra das aulas sobre Feudalismo, a Itália enquanto nação só passa a existir do século XIX para cá. Antes dessa época, o país era dividido em diversos reinos que disputavam poder e território em sangrentos embates e conspirações. Rivalidade de família era praticamente lei.

Apontado pela critica internacional como uma versão feminina do mais que pop O código Da Vinci, Julieta, embora siga a mesma cartilha dos romances com um pé na literatura de suspense-policial e outro pé no romance “histórico”, tem méritos próprios. A reconstituição de época é cuidadosa e a personagem principal tem uma história pessoal, dramas familiares não resolvidos e limitações que a tornam bem mais carismática do que o simbologista Robert Langdon. Rende um bom roteiro de sessão-pipoca. Para fechar com chave de ouro, lógico, existe um Romeu moderno para essa Giulietta que usa jeans e camiseta. Mas se o final faz jus a Shakespeare, só lendo para descobrir…

Ficha técnica:
Julieta
Autora:Anne Fortier

Tradução: Vera Ribeiro

Editora: Sextante

448 páginas / Preço: R$ 39,90


Resenha: O Mundo de Sofia

postado por Andreia Santana @ 12:09 AM
22 de janeiro de 2011

O livro O Mundo de Sofia, ícone dos anos 90, completa 20 anos agora em 2011. O caderno 2+ – edição impressa de A TARDE deste sábado, dia 22 (assinantes da versão digitalizada acessam neste link) -, publica reportagem minha sobre a importância da obra na popularização de temas filosóficos na literatura. Abaixo, vocês lêem uma resenha do livro, conferem a ficha técnica e também trechos da minissérie norueguesa inspirada no romance de Jostein Gaarder:

“O mundo do conhecimento”

A palavra sofia vem da língua grega e significa conhecimento. Não é à toa que Jostein Gaarder escolhe este nome para sua protagonista. O mundo de Sofia, traduzindo literalmente, é “o mundo do conhecimento”, que na visão deste autor, é acessível a todos. Desde que as palavras sejam despidas da pompa limitadora e imbuídas de simplicidade, revelam que certos “grandes mistérios”, só precisam de um pouco de esforço de raciocínio para serem desvendados.

Parece utópico, em um mundo tão desigual, acreditar que o conhecimento um dia será de fato acessível a todos, mas com seu carismático livro que se pretende um “romance da história da filosofia”, Gaarder nos mostra que sem utopias sequer teríamos chegado à civilização. Nesse contexto, O mundo de sofia também é um livro que fala de poder. É fato que quanto mais conhecimento alguém adquire, mais capaz torna-se de questionar a “ordem natural das coisas”.

Jostein Gaarder era professor de filosofia no ensino médio, na Noruega, quando decidiu criar um romance que contasse aos jovens a origem do pensamento crítico e filosófico no ocidente

Para quem nunca leu a obra, O mundo de Sofia conta a história de uma adolescente que perto de completar 15 anos, começa a receber cartas misteriosas com um curso de filosofia gratuito, oferecido por um tal de Alberto Knox, de quem nunca ouviu falar. Ao mesmo tempo, a vida da menina vira de cabeça para baixo porque ela parece intimamente ligada a de outra garota que tem sua idade e faz aniversário no mesmo dia, Hilde Knag.

Enquanto, guiada por Knox, percorre os séculos, passando pelas diversas escolas filosóficas, desde os pré-socráticos da antiga Grécia até Sartre, Sofia precisa lutar contra o tempo para desvendar o mistério de Hilde, do qual depende sua própria existência.

O livro trata ao mesmo tempo do conhecimento abrangente – o que é o mundo? -, até o autoconhecimento. A primeira pergunta que Alberto Knox faz para Sofia é o clássico “quem é você?” A resposta da menina é reveladora: eu sou uma pessoa, sou Sofia. Boa metáfora para a velha fórmula de Descartes, “penso, logo existo”.

Ficha Técnica:

O mundo de Sofia

Autor: Jostein Gaarder

Tradução: João Azenha Jr.

Editora Companhia das Letras / 555 páginas / R$ 49,50

>>Sofia na TV

O mundo de Sofia, ao contrário de obras bem menos conhecidas, não virou blockbuster em Hollywood, mas em 1999 transformou-se em minissérie para a tv norueguesa, que fez um relativo sucesso na Europa e também Austrália, onde a jovem aprendiz de filósofa tem muitos admiradores. Com direção de Erik Gustavson, a série chegou ao Brasil em DVD, em 2008, na esteira das altas vendas do livro no país.

Esse trecho da minissérie é uma boa metáfora também para a imaginação e seus limites: